No caminho de Swann – entrada e saída

Antes de começar a escrever as minhas impressões sobre o primeiro volume do classiquésimo Em busca do tempo perdido, um aviso: não estou fazendo uma análise literária embasada em teorias disso ou daquilo. São apenas comentários. Infelizmente – ou felizmente? – não há tempo para ler a obra com toda a atenção que merece (pelo menos não nesse momento). Optei por fazer uma leitura que me permitisse perceber certas coisas, mas sem me privar do quesito entretenimento. Agora sim, lá vai. 

Bom, foi um erro deixar para escrever a resenha agora, quando já estou quase acabando o volume 2. Porém, o tempo… é algo muito relativo, complexo e fugidio.

O que eu achei de No caminho de Swann?

Muito bom!

Não é uma leitura fácil, às vezes dá vontade de deixar para outro momento, assistir um seriado, fazer outra coisa. Só que não dá para abandonar, por três motivos. Vamos lá!

1- No primeiro capítulo, o herói irá discorrer sobre suas memórias sobre a cidade fictícia de Combray. Uma das ‘cenas’ mais bonitas e intrigantes acontece logo no início:

“Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: ‘Adormeço’. E, meia hora depois, despertava-me a ideia de que já era tempo de procurar dormir; queria largar o volume que imaginava ter ainda nas mãos e soprar a vela; durante o sono, não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; parecia-me que eu era o assunto de que tratava o livro: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V” (p. 20).

Para quem adora uma reflexão metaliterária, encontramos várias delas ao longo de No caminho de Swann e – segundo o que já sei sobre o restante da série – esse questionamento perdura.

Além das partes que constituem ideias do herói ou das personagens sobre arte e literatura, há também a demonstração dos caracteres, em geral, pertencentes a classes abastadas cujas atitudes não escapam ao olhar aguçado do jovem:

“…nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio. Até o ato tão simples a que chamamos “ver uma pessoa conhecida” é em parte um ato intelectual. Enchemos a aparência física do ser que estamos vendo em todas as noções que temos a seu respeito; e, para o aspecto total que dele nos representamos, certamente contribuem essa noções com a maior parte” (p. 39).

Uma das passagens que mais me intrigava (ou irritava?) era todo o ‘fiasco’ que o menino fazia na hora de ir dormir e ter de ficar ‘agonizando’ até o momento em que receberia o beijo de sua mãe. Não vou nem poder transcrever nada aqui porque são páginas e mais páginas de divagação. Mas, enfim… ele era uma criança (não há como precisar a idade) quando passava algum tempo em Combray, nada mais compreensível esse apego à mãe, em um universo tão inflado de obrigações sociais dos adultos, como jantares e festas.

É também nesse capítulo que temos a famosa cena da madeleine. O menino Marcel faz uma bonita descrição do biscoito em contato com o chá, desencadeando uma série de aromas e gostos, que teriam em sua alma um grande impacto. Na verdade, a parte inicial nos dá uma boa noção de quem é Charles Swann (uma das figuras centrais do romance) e também da família de Marcel: a tia Léonie, seus pais, avós entre outras tias.

Em linhas gerais, No caminho de Swann está centrado na reflexão sobre o passado (obviamente o tempo sendo o objeto de busca do narrador, não poderia ser excluído, embora no segundo volume Marcel esteja mais focado em outras relações em Balbec), a literatura e as figuras na sociedade, obviamente.

Uma das aflições do narrador, sem dúvidas, era sobre a sua vontade de ser escritor: “Quantas vezes depois daquele dia, em meus passeios para os lados de Guermantes, não me pareceu ainda muito mais aflitivo que anteriormente não ter nenhum pendor para as letras e ver-me obrigado a renunciar de uma vez por todas a tornar-me um escritor famoso?” (p. 226)

2 – Partindo para o segundo capítulo, “Um amor de Swann”, temos a história que se passa muito antes das visitas de Swann à família de Marcel em Combray, quando o menino ficava ansioso esperando pela visita da mãe em seu quarto. De forma bem resumida, é o início e o desenvolvimento do romance entre Swann e Odette, uma mulher de ‘vida fácil’ (ou difícil?), que frequentava o salão da Sra. Verdurin.

Curioso acerca do surgimento desse amor é a sua circunstância. Inicialmente, vemos como Odette dá sinais a Swann; sutilmente revelando que tem interesse por ele. Entretanto, a atenção de Swann só é despertada quando, em uma visita à casa de Odette, ele repara como ela parece uma pintura de Botticelli. Daí em diante é louquero total, Swann apaixonadésimo, aflitíssimo, uma sangria desatada por conta da Odette, que trata de arrumar um outro amigo, o senhor de Forcheville. E aí tu coloca umas boas cento e tantas páginas de agonia. Mas não é monótono, porque o Marcel nunca cessa de tomar novas figuras da sociedade – muitas as quais aparecerão ao longo da narrativa de todo o tempo perdido. Ainda, saber sobre Swann é, em certa medida, conhecer Marcel.

O final do capítulo dá a entender que o Swann já está sufocado de tanto ciúme e sofrimento, parece que aquilo não vai se resolver nunca. Sofremos com ele! 3- Porém, o terceiro capítulo “Nome de terras: o nome” aponta para outras direções. O capítulo inicia com as divagações do Marcel sobre seus quartos de insônia, mas logo a narrativa muda seu rumo para nos mostrar como o jovem entra em contato com Gilberte Swann, filha de Charles e Odette. Aqui já podemos perceber que Marcel e Charles tem muito em comum. Para falar a verdade, o nosso herói-narrador-Marcel tem muitos devaneios acerca de belas moças. Trava relações com Gilberte e já começa a experimentar agonias parecidas com a de Charles – obviamente em um nível mais ameno, já que Gilberte não é uma moça “da vida”. (No livro temos o termo ‘cocote’ para referir-se à Odette. Palavrinha feia, btw!)

É lá pela página 476 que o Marcel começa a dar o que chamei de “sinais de Swann”:

“Todo o tempo que me achava longe de Gilberte, tinha necessidade de a ver, porque, procurando incessantemente representar-me a sua imagem, acabava por não mais consegui-lo e por não mais saber exatamente a que correspondia o meu amor” (p. 477).

Algo que eu não esperava, mas que, felizmente ou infelizmente, acontece no final do livro é que ele dá claramente uma ideia de continuidade. Ou seja, não é aquele livro que acaba e tu te sentes ok com a história e talvez até nem queira continuar a ler os outros volumes da série. Ele já dá o indício de que mais coisa vai sair justamente daquilo que foi comentado até então.  Não sei se é porque, segundo o que tem nas notas de rodapé, À sombra das raparigas em flor já estava em andamento e foi cortada uma parte do volume 1 por questões óbvias de dimensões!

Em breve apareço para falar do volume 2. Tinha tanta coisa que marquei como legal nesse livro, no entanto, creio que vou fazer uns ‘drops’ com trechos belíssimos.

Espero que tenham gostado dessa overview. Às vezes, pode parecer que o livro carece de um plot muito específico, pois muita coisa se desenrola ao mesmo tempo, digo, em uma parte podemos encontrar várias personagens e ter delas um aprofundamento considerável e isso dá a impressão de que não tem um mote vital. Ele existe e é o tempo.

Fui!

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