À sombra das raparigas em flor – Proust #2 Em busca do tempo perdido

Essa página do blog já não deveria mais se chamar de ‘diário’, pois publicar por dia é impossível! Ficaria melhor mensário de Proust!

Entretanto, assim como na obra do Marcel, o importante é o caminho e não o ponto de chegada. Um livro concebido em sete volumes assusta, desmotiva ou encoraja, depende do ponto de vista. Se você nunca começar, fica difícil acabar. E também não dá para ficar na ansiedade de chegar até o final das mais ou menos 3000 páginas. Portanto, uma regra geral para embarcar nessa viagem é ter muita paciência e calma. Demorei bastante para terminar o volume 2 porque havia tantas outras leituras na frente. Mas não desisti! Até porque a escrita do Proust – embora muito confusa às vezes, pelas idas e vindas que faz – é muito envolvente. O olhar que ele lança para aquelas personagens, suas impressões e seu envolvimento quase automático pelas raparigas em flor são coisas interessantíssimas nesse segundo volume.

Quando fechei No caminho de Swann, imaginava algo completamente diferente por vir. Outras memórias, mudança brusca de paisagem e personagens.

Para minha surpresa, a primeira parte, “Em torno da Sra. Swann” retorna a dar detalhes da vida de Swann e Odette, introduzindo uma nova e importante personagem: a filha deles, Gilberte. Só para variar, o narrador se apaixona por ela e vivenciamos uma aflição apaixonada bem aos moldes que pudemos observar no romance de Charles e Odette.

A segunda parte, “Nome de terras: a terra” traz as novidades: o narrador e sua avó se dirigem para a cidade litorânea fictícia de Balbec. Lá, Marcel trava conhecimento com diversas personagens: o pintor Elstir, a sra. de Viliparisis, o escritor Bergotte. Um desses personagens é muito interessante, Robert Saint-Loup, um aristocrata com ideias socialistas, mas que era procurado justamente pela sua posição social:

“Essa atividade mental, essas aspirações socialistas que o levavam a reunir-se com jovens estudantes sunçosos e malvestidos, pareciam nele muito mais puras e desinteressadas do que naqueles outros rapazes, exatamente porque Robert era um aristocrata. Como se considerava herdeiro de uma casta ignorante e egoísta, fazia Saint-Loup o possível para que aqueles amigos lhe perdoassem a sua origem aristocrática, quando exatamente o  procuravam pela sedução que lhes oferecia a sua linhagem, embora dissimulassem, fingindo-se frios e até insolentes com ele.” (p. 377)

Talvez o mais encantador na Busca, além desse panorama social (o qual, creio, que se possa compreender apenas a partir de um contraponto com a sociologia de fato) são os comentários de Marcel sobre a arte, sobre a literatura. Seu desejo de ser escritor o impulsiona a ser observador e o nosso herói não desiste tão fácil da carreira como literato:

“Mas meu pai fizera constante oposição a que eu me destinasse à carreira das letras, que julgava muito inferior à diplomacia, chegando a recusar-lhe o nome de carreira, até o dia em que o sr. de Norpois, que não estimava muito os agentes diplomáticos das novas fornadas, lhe assegurara que se podia, como escritor, atrair uma consideração, exercer a mesma influência e conservar mais autonomia que nas embaixadas.” (p. 29).

Outra mudança bem considerável com relação ao caminho de Swann é o caso do Dr. Cottard – visto como um completo idiota no primeiro volume, agora é reconhecido como um grande clínico.

Além de Gilberte, com quem o narrador se ocupa por muito tempo em seu envolvimento amoroso que logo sucumbe, outra personagem feminina de extrema importância para toda a busca do tempo perdido aparece: Albertine, uma das ‘integrantes’ do grupo das raparigas ‘em flor.’

Pelo que pude entender, Albertine, apesar de ter um ‘bom sobrenome’, faz parte de uma casta já em decadência, vivendo na casa de amigos de familiares de tempos em tempos.

Ela é a personagem feminina central de toda a obra porque, além do destaque que assume nesse segundo volume, ela torna a aparecer nos volumes seguintes, sendo A prisioneira (vol. 5) e A fugitiva (vol. 6), centrados na figura de Albertine. O envolvimento de Marcel com essa moça é bem platônico, a princípio. Porém, quando ela convida-o a passar em seu leito quando hospedada no Grand Hotel (o mesmo que Marcel), ele tenta beijá-la, o que a deixa furiosa e estremece a relação entre os dois. Um tempo depois eles voltam a se falar e ela diz que nunca havia dado nenhum indício de que o convidara até seu leito para que ficassem juntos daquela forma.

Por mais que eu fique copiando trechos do livro, dizendo que a escrita é legal, isso nunca vai surtir o mesmo efeito do que lendo a coisa em si. E isso é o mais maravilhoso na literatura. Ela permite spoilers, você não perde a vontade de ler um livro só porque descobriu boa parte dele (isso não se aplica para a série Game of Thrones, please). Vou continuar O caminho de Guermantes da mesma forma que fiz com os outros livros precedentes: aproveitando o momento, sem pressa de acabar. Obviamente nesse meio tempo irão surgir outros livros no meu caminho. Em breve – ou não – mais uma página virada, nesse mesmo diário.

Desligo!

Encerrado!

Encerrado!

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