O poder inútil do textão

Não sou o tipo de pessoa que posta textos de opiniões nos blogs, pois muitas vezes jogo tudo no feeling e deixo muitas lacunas, as maravilhosas lacunas da ambiguidade que podem gerar linhas e linhas de discussão.

Mas hoje quero refletir algumas coisas e como o blog tem moderação de comentários, vou poupar muita gente de ler discurso de ódio, porque é isso o alvo de ataque de hoje.

Ontem uma amiga minha fez um textão no Facebook a respeito da barbárie do estupro coletivo e levantou uma questão importante: o textão é relevante apenas para aqueles que possuem uma opinião parecida com a nossa. Os que pensam diferente jamais irão colocar um comentário aberto ao debate, numa boa e tal.

Porque internet não é lugar de ficar numa boa. É lugar para julgar as pessoas da forma mais unilateral possível, é espaço para partir para a baixaria sobre qualquer coisa e principalmente, falar mal não importa o motivo.

Sempre tive vontade de fazer um canal no youtube sobre livros, mas vendo o que a Tatiana Feltrin e a Patrícia Pirota têm de aguentar por causa dos comentários maldosos gratuitos acaba comigo. Não é não gostar de ser criticado. É justamente porque crítica não significa falar mal, mas falar com argumentos, com conhecimento de caso e apontar as coisas ainda por melhorar de uma maneira que não seja um pataço. Isso é crítica e quem faz de um outro jeito só pode ser muito infeliz.

O textão hoje em dia serve para confortar, nos mostra as pessoas que não nos deixam sozinhas no meio da carnificina do ódio. O sistema todo se corrompeu e por sistema acho que devemos pensar no sistema humano. A humanidade parece ter entrado num looping de colapsos e não se livra deles.

Tudo é ideológico e político – e politico não significa partidário. Confundimos tudo hoje em dia, as palavras assumem um significado que não lhes compete, de verdade. Querer igualdade social e melhores condições para quem vive na miséria te torna comunista que nunca – NUNCA! – pode ter um iPhone ou um tênis Nike – mesmo que você tenha comprado numa promoção relâmpago.

Quando o Temer nos diz para não pensar em crise e trabalhar, ele está dando risada da cara de todo mundo, aquela risada que solta cuspe, sabe? Pois é. Ele tá fazendo isso mesmo, porque trabalho no Brasil é isso: oito horas de dedicação pra alguém que está sugando tua vida e tua capacidade criativa, põe mais três ou quatro horas de deslocamento e pronto, você chega em casa para dormir.

Mas – a culpa da crise no Brasil não vai ser da camada que estudou sociologia, história, psicologia e todo o resto, ou que tem um fácil acesso a essas informações e vai se mexer para dividir o conhecimento com os demais. Vai ser sua. Que não consegue dar conta da informação porque fica oito horas socado no trabalho e quando chega em casa liga a tevê na globo – porque é só a globo que tem e mesmo se tivesse outra, não foi ensinado ao pensamento crítico. Você não é burro. Você foi privado da oportunidade de construir um pensamento crítico. Mas muitos foram. Até mesmo os que estudaram em escola particular com os melhores livros, ou que estudaram em escola pública com bons professores, mas simplesmente preferem olhar para o próprio umbigo.

Não estamos anestesiados. As ocupações das escolas no Rio Grande do Sul a favor da greve dos professores mostra como mesmo com toda uma superestrutura empenhada em nos fazer inertes está formando pessoas que pensam, ou pelo menos querem o fazer.

A desvalorização do professor é outro resultado de um discurso ridículo de que professor trabalha por amor. Ninguém trabalha por amor, é por dinheiro e sustento, é por dignidade. A mulher não pede por estupro. Nunca. Ela pode estar bêbada, drogada, o que for. Ela não pediu. O homem quando fica bêbado está “pedindo”? Os homens acham que esse tipo de comparação é exagero. Claro! Isso coloca o dedo na ferida, isso mete água no seu mundo encantado onde você não precisa se preocupar com nada disso. A mulher não pode andar por aí mostrando toda a bunda (mas na hora de consumir fotinha de  mulher pelada em revista ou no instagram, ok) porque tem que se dar o respeito.

O tipo de absurdo que lemos na Internet todos os dias é resultado de uma vontade rasa de atacar o outro, porque importa a manchete, não analisar o caso como um todo. De todas as barbaridades lidas, acho que uma notícia no G1 foi a pior de todas. A notícia era sobre uma espécie marinha em extinção, não lembro bem o lugar, mas acho que era na Austrália. O comentário? “Morre logo essa merda”. Uma pessoa com capacidade de ficar na frente do computador distribuindo ignorância, desafeto e grosseria não pode ser bem intencionada. E é assim que todos se intitulam. Pessoas “de bem”. Uma simples notícia a qual deveria nos levar a pensar nossos atos como seres “conscientes” a respeito da natureza virou alvo de comentário babaca.

Esses dias, no Brainpickings, li uma resenha sobre o discurso do David Foster Wallace na Kenyon College e ele fala sobre nossa dificuldade de enxergar o outro, entre outras coisas, ele fala sobre gentileza, se colocar no lugar  do outro:

But most days, if you’re aware enough to give yourself a choice, you can choose to look differently at this fat, dead-eyed, over-made-up lady who just screamed at her kid in the checkout line. Maybe she’s not usually like this. Maybe she’s been up three straight nights holding the hand of a husband who is dying of bone cancer. Or maybe this very lady is the low-wage clerk at the motor vehicle department, who just yesterday helped your spouse resolve a horrific, infuriating, red-tape problem through some small act of bureaucratic kindness. Of course, none of this is likely, but it’s also not impossible. It just depends what you want to consider. If you’re automatically sure that you know what reality is, and you are operating on your default setting, then you, like me, probably won’t consider possibilities that aren’t annoying and miserable. But if you really learn how to pay attention, then you will know there are other options. It will actually be within your power to experience a crowded, hot, slow, consumer-hell type situation as not only meaningful, but sacred, on fire with the same force that made the stars: love, fellowship, the mystical oneness of all things deep down.” (grifo meu)

Quando eu era pequena, das inúmeras vontades inerentes à uma criança, tinha vontade de viver a vida de outra pessoa, mas mantendo a minha mente. Tipo, viver a vida do fulano por um dia para saber como é. Depois de reconhecer essa impossibilidade, chego à conclusão que somos o outro. Justamente por não conseguirmos nos transferir para outras vidas e corpos, podemos apenas imaginar que qualquer coisa capaz de afeta-los, nos afetaria também. Ok, você não vai lidar com uma situação de perda da mesma maneira que sua amiga só por ter se colocado no lugar dela quando ela perdeu um ente querido, mas a questão é uma previsão do que sentir. Somos vulneráveis a perdas (financeira, morte, distância), fome e sede e violência. Mas não é tempo de refletir, de pensar. É tempo de atacar.

Acabei de ler umas coisas tenebrosas “na outra rede” e pensei em apagar essa coisa toda, mas não.

Aqui se encerra mais um textão que não adiantou bosta nenhuma. Talvez tenha confortado alguém, para saber-se não sozinho no mundo.

Talvez a vida seja só isso: não caminhar sozinho.

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