Como ser feliz sozinho

Não, esse não é um post de como aguentar a solteirice, ainda mais nesse frio intenso que arrebatou o Rio Grande do Sul praticamente da noite para o dia. Agora deve estar uns 11ºC lá fora. Felizmente minha casa é bem quentinha. 🙂

O título se refere a algo que eu gosto muito de fazer. Envolve cobertores, travesseiros aconchegantes e uma luz apropriada…tcha-ran: LER.

Hoje foi dia de muita escrita, mais do que leitura. Na verdade, tudo o que escrevi hoje foi resultado de meses ruminando algo sobre a Hilda Hilst e finalmente consegui botar muita coisa no papel. Ainda faltam alguns detalhes teóricos para acrescentar, mas a minha leitura do poema está praticamente toda montada (sempre vai ter mais coisa para colocar até a hora de imprimir o trabalho). Isso me fez pensar como trabalhar com literatura é solitário, quase sempre o é. Claro que se a pessoa já está lecionando a disciplina existe algo o qual só se realiza no espaço da discussão da sala de aula. Ainda não é a minha realidade, por enquanto só trabalho com a língua inglesa mesmo, sempre tentando enfiar umas dicas de leituras entre uma gramática e outra.

Estou meio bloqueada na tese, não tenho conseguido ler as coisas que considero importantes, mas pelo menos tirei umas toneladas das costas escrevendo esse trabalho.

Bem, com essas de passar a tarde inteira com dicionários de símbolos, livros sobre poesia, Bachelard e Hilda, consegui me sentir bem fazendo isso, coisa que já não me dava tanto gás ultimamente. Em Lisboa é claro que foi um ritmo muito intenso de leitura e escrita, mas “só” produzi resenhas, estava há muito tempo longe das análises poéticas. Foi legal.

Entre os diários da Sylvia Plath, as cartas do Mário de Andrade e as coisas teóricas lidas quando posso, meti o João Cabral de Melo Neto na parada também. Comprei A educação pela pedra já faz um tempinho e desde Morte e vida severina eu já estava completamente envolvida com esse cara. Essa edição é da Alfaguara, reunindo vários títulos do autor. Gosto do jeito como ele organiza os poemas, eles são muito cantados, possuem essa característica muito forte. Rimas internas, trocadilhos, repetições. Ele faz isso parecer fácil! E sempre conciliando a paisagem seca, da seca, com a realidade não menos seca dos habitantes dessas terras.

Para encerrar, só posso dizer que a leitura é uma das melhores formas de ser feliz sozinho. Deixo umas coisinhas que destaquei nos livros ao longo dos anos/semanas/dias.

“A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza: exercício espiritual, é um método de libertação interior.” (Octavio Paz, O arco e a lira)

“Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco

À espera da Tua Fome, permita-me a pergunta

Senhor de porcos e de homens:

Ouviste acaso, ou te foi familiar

Um verbo que nos baixos daqui muito se ouve

O verbo amar?” (Hilda Hilst, Do desejo)

“Costuro o infinito sobre o peito. / E no entanto sou água fugidia e amarga” (Hilda Hilst, Do desejo)

“Feel very blue. Hate wasting a weekend like this. To hell.” (Sylvia Plath, The unabridged journals of Sylvia Plath)

“One of those nights when I wonder if I am alive, or have been ever. The noise of the cars on the pike is like a bad fever.” (Sylvia Plath, idem)

“It is a fact verified and recorded in many histories that the soul capable of the greatest good is also capable of the greatest evil.” (John Steinbeck, Tortilla Flat)

“O Recife cai sobre o mar

sem dele se contaminar.

O Recife cai em cidade,

cai contra o mar, contra: em laje.” (João Cabral de Melo Neto, Paisagens com cupim, A educação pela pedra)

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