Nas tuas mãos, de Inês Pedrosa

Estive fugindo um pouco dos super pop lusitanos Saramago, Pessoa e Camões, resolvi ler esse livro da Inês Pedrosa. Já havia lido Dentro de ti ver o mar, o qual não achei ruim, mas algumas situações ali me pareceram muito idealizadas e far-fetched. Conhecia Nas tuas mãos apenas de ouvir falar, pois no último ano da faculdade, uma das atribuições da literatura portuguesa em prosa era apresentar um seminário sobre livro tal. Alguns colegas apresentaram esse da Inês, outros ficaram com Os cus de Judas, do Lobo Antunes, teve Saramago, Lídia Jorge. Fiquei com No silêncio de Deus, da Patrícia Reis, uma escritora relativamente nova no cenário português, na época me parece que ela escrevia artigos sobre moda, fazendo com que o pessoal não levasse muita fé nela, dizia meu professor. Já se passaram muitos anos (5 anos!), não lembro tanto do enredo, mas esse livro da Patrícia Reis me marcou bastante. Enfim,  na época da apresentação de Na tuas mãos acho que perdi a aula ou esqueci mesmo. O último ano de Letras da FURG naquela época concentrava três literaturas muito densas (e tensas!): portuguesa, brasileira e inglesa. Isso acrescentado aos estágios, aos estudos da língua portuguesa e inglesa, entre outras coisas que surgiam.

Uma amiga acabou me recomendando a leitura desse livro da Inês Pedrosa e ao contrário do que possa parecer, sou muito influenciável, acabo lendo muito dos títulos recomendados. Sempre guardo lá no canto da memória um título, um autor, um enredo.

Eis um pouco da história:

Três mulheres, três gerações distintas, três formas diferentes de contar a história, mesmo sangue: Jenny, mãe de Camila, que é mãe de Natália (que é neta de Jenny, voilá!).

A vida dessas mulheres chega até o leitor de meios distintos: o diário de Jenny, as fotografias de Camila e as cartas de Natália. Essas mulheres possuem vidas excêntricas e diferentes, embora muito orientadas pelo pilar chamado Jenny e seu conturbado triângulo amoroso com Pedro e António. O amor vivenciado pelas personagens é atravessado por histórias dos tempos da ditadura de Salazar e da guerra na África e esses eventos deixam marcas profundas em todas elas. As escolhas pessoais e políticas guiam Jenny, Camila e Natália ao longo de seus respectivos momentos e coloca em evidência a relação de Jenny com seu passado levando até a história de Camila e consequentemente de Natália. O passado de Jenny é mais longínquo, o de Camila encurta-se um pouco, enquanto Natália produz relatos tanto do passado mais distante quanto de sua situação mais presente. Pode romance ser considerado uma narrativa sobre o ser e sua relação com o tempo? Creio ser essa uma das possibilidades. Não seria essa a função de todas as narrativas? (Creio nisso). Os eventos da história envolvendo repressão e guerra influencia em um modo de ver o mundo, de se relacionar com esse espaço e de se compreender dentro dele.

Em tempos de Brasil na corda bamba, em uma luta pela democracia baseada no pode tudo, faz bem ler umas coisas assim, que tocam no nosso senso de justiça, de luta e de liberdade.

Algo novo experimentado com esse livro foi o fato de poder reconhecer os lugares de Lisboa mencionados ali: a Avenida da Liberdade, o Terreiro do Paço, o Tejo, o Rossio, a praça dos Restauradores. Certamente minha relação com os romances portugueses se modificou bastante e continuará em transformação graças ao período que pude morar lá.

Fiz esse mesmo post no blog novo e senti que aquilo lá não vai durar muito tempo. Essa esperança de um espaço novo como algo energético foi por água abaixo e muitas vezes é preciso apenas trabalhar os lugares antigos, investir nesses caminhos em busca da novidade que salta de uma epifania.

Esses dias fiquei lendo o blogspot que eu tinha e achei coisas interessantes ali, penso em postá-las aqui um dia, quem sabe. Enquanto isso, sigo tentando investir. Investir forças na escrita, seja ela criativa ou sobre outra obra ficcional, investir na pouco de sanidade mental para conciliar tudo isso.

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