Fechando o ciclo “clássicos em 2015” com O tempo e o vento, Érico Veríssimo

Salut!

O final do ano se aproxima e com ele não apenas nossas resoluções 2016 começam a ser pensadas, mas as listas retrospectivas também aparecem. Não, ainda não estamos no post melhores de 2015. (ainda).

Esse ano, não sei por qual razão, certamente foi algo ao acaso, acabei lendo muita coisa que demandava dedicação e tempo (Guerra e paz é um exemplo!) e daí resulta a leitura de O tempo e o vento.

Minha relação com o Érico Veríssimo começou com Incidente em Antares, livro que relutei muito a ler por completo, sempre abandonava na metade. A partir dali eu já tive uma noção do impacto causado por sua narrativa. Lembro de ter chegado ao final da história e pensado “tá, e amanhã eu faço o que?”.

Os romances do Érico são um evento. Uma amizade, um casamento, uma convivência. Os personagens vão se delineando aos poucos, nos comentários sutis ou no discurso direto – e reto! Por isso, essa impressão de abandono depois de virar a página final.

Bem, O tempo e o vento é (a princípio) uma trilogia: O continente, O retrato e O arquipélago. Na edição da Companhia das Letras, ela está dividida em sete volumes: O continente I e II, O retrato I e II e O arquipélago I, II e III.  Li a versão digital por me proporcionar maior flexibilidade: levar o kindle dentro da bolsa e poder ler no ônibus, no metrô, andando, faz lá sua diferença.

Não sei onde vi/li, mas esse romance inspirou Gabriel García Marquez a escrever seu Cem anos de solidão – e por favor a coisa é muito na cara! (não é plágio, fique bem claro) Portanto, quem leu o romance do Gabito tem muitas chances de curtir esse, e vice-versa.

Qual é o enredo de O tempo e o vento? Bem, isso é um pouco complicado, pois ele narra os primórdios do Rio Grande do Sul, a ocupação do Continente de São Pedro indo até o ano de 1945, fim do Estado Novo. (isso tem na wiki, nada de diferente até então) É complicado porque num arco temporal tão grande e em um número considerável de volumes aparecem muitas histórias dentro da história, embora essas histórias sejam das personagens, mescladas com a situação política do Brasil.

O tempo e o vento é um romance cíclico na acepção mais pura (é possível?) da palavra: ele retorna ao começo de modo literal, marcado. Curto muito romances que fazem essa ligação explícita ou implícita, como também adoro aqueles que desaparecem do nada, deixando apenas uma névoa como rastro… (vai saber…) Começa (e termina) assim:

“Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado.” (VERÍSSIMO, 2004).

Talvez eu tenha estragado a magia para alguns, pois eu não sabia (ou lembrava) que o romance era circular dessa maneira e isso me deu a possibilidade de sorrir ao ler exatamente a mesma frase do início.

Comecei pensando se tratar de um romance (em parte) histórico, dada a diferença do tempo de escrita e tempo da narrativa. Por sinal, O continente pode ser um mundo ficcional completo, não apenas delineando o começo do RS, mas as origens da família Terra Cambará, a qual iremos acompanhar até o fim da trama. Impossível não se surpreender e se apaixonar pela personagem Ana Terra, sem dúvidas uma protagonista essencial na formação do Continente de São Pedro. Aliás, Érico Veríssimo assinala a importância da mulher na guerra. Na verdade, as mulheres também vão para a guerra – vão com seu pensamento e angústia – e a sofrem tanto quanto os companheiros em combate. Vale salientar ainda que o trajeto remoto (1745) nesse primeiro tomo é interceptado por capítulos mais recentes (1895), onde Licurgo Cambará é figura central e o pano de fundo histórico é a Revolução Federalista. Talvez seja redundância, mas a família Terra Cambará é combatente. Ela combate o tempo inteiro e até o fim, seja no campo de batalha ou na política e não dá sinais de acabar, nem mesmo com o clássico “FIM”.

Nem tudo é história História e nem tudo é ficção, tudo imbrica-se. O narrador vai oscilando entre coisa e outra, mesclando, um pouquinho parecido com o narrador de Os miseráveis (ele faz muito de contar algo mais amplo, histórico e depois colocar seu foco novamente sobre as personagens).

A minha intenção aqui não é resumir o livro (embora esteja fazendo isso sem perceber) então vou tentar encurtar a coisa.

Depois de transpor a linha mais remota do Continente, vem O retrato e é aí que a coisa fica interessante de maneira diferente. A figura do doutor Rodrigo Cambará (filho de Licurgo), agora central nos tomos de O retrato, num primeiro momento, me deixou super cativada. Um jovem médico ambicioso, sempre disposto a ajudar aqueles menos desprovidos de dinheiro. Com o tempo, Rodrigo  começou a me dar nos nervos! Tem uma passagem interessante do primeiro tomo, resumindo esse sentimento:

” – Tu falas  com um sujeito e ele te diz que o doutor Rodrigo é o melhor homem do mundo. Falas com outro e ele te garante que o doutor Rodrigo é um canalha.

 – Tudo é relativo na vida. Nós todos temos muito de anjo e muito de demônio dentro de nós.” (VERÍSSIMO, 2004)

A personagem da primeira fala é um oficial de justiça, a segunda, de Cuca Lopes, alcoviteiro cativo de Santa Fé. Essas falas me envolvem paradoxalmente: ao mesmo tempo que concordo com Cuca Lopes e enxergo o anjo e o demônio de Rodrigo Cambará, o demônio me vence.

Interessante é que a partir de O Retrato, as mulheres “perdem” voz. Note-se perdem a voz no sentido de não terem mais tanto acesso ao discurso direto, mas não deixam de possuir a força, o poder, a atuação (embora seja tudo isso mediado por um narrador). A única personagem feminina a realmente falar (ter seu foco narrativo) em O tempo e o vento é a afilhada de Rodrigo Cambará, Sílvia, já no terceiro volume de O arquipélago. Isso me surpreendeu bastante, pois apesar de sua importância como amor platônico de Floriano Cambará (um alter ego de Érico?), ela só surge nos momentos (relativamente) finais do romance. Eu queria ter ouvido a Flora. Essa personagem ainda é um mistério para mim, embora sua frieza para com Rodrigo indique que ela não se conformou com as traições do marido e se recusou a seguir aquele modelo, mesmo que parcialmente. Menciono ainda Maria Valéria, madrinha de Rodrigo Cambará, que tudo vê mesmo depois de ser acometida pela cegueira.

Como gaúcha, esse livro me enriqueceu demais. É uma variedade do vocabulário, de expressões, de mitos que nos fazem sentir algo já não tão bem definido como identidade nessa geração conectada, global (e paradoxalmente com as fronteiras cada vez mais delimitadas e fechadas!). Personagens enraizadas no campo como o velho Fandango, tornam essa narrativa muito gostosa e familiar. Mundo velho sem porteira! – é o que ele e muitos outros costumavam dizer quando ouviam algo absurdo, surpreendente.

Sinto que não grifei tudo de importante e edificante ao longo do percurso em O tempo e o vento. Aquela velha esperança de revisitar os grandes livros me bateu e creio que vou ter a oportunidade de retornar.

Uma coisa me marcou, palavras de Floriano:

“Nisso é que está o estranho da coisa toda. Ninguém é bom cirurgião quando opera no seu próprio corpo. Ou não corta o suficiente ou corta demais. Mas talvez isto não passe de uma frase…” (VERÍSSIMO, 2004)

Depois de uma coisa dessas você nem sabe mais qual história escolhe para dar continuidade na reading list. Na indecisão, sigo nas minhas leituras teóricas que vão desde antropologia à física quântica e continuo a fotografar capas legais nesse mundo vasto mundo de livrarias e bibliotecas portuguesas.

Fui!

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