Ana Cristina César, Orwell, Eliane Brum, Calvino, Victor Hugo, Borges

Sentimento paradoxal esse o de falar (e/ou escrever). A vontade é permanecer no mutismo até que o mundo dê uma solução plausível, mas essas são as inverossímeis. Antes de abrir a tela para escrever resenhas, uma energia me invade e também ideias. Basta organizar tudo e lá vem o desânimo. Por isso tenho abandonado o blog durante um tempo, porque às vezes parece que tudo – t u d o – é sem sentido, sem objetivo. Ainda bem que essas coisinhas com capas e folhas com letras nos fazem escapar um pouco dessa falta sempre presente.

Falar de todos esses autores que me acompanharam nos últimos meses não vai ser fácil, pois acumulei muitas ‘emoções’ para compartilhar em um só post.

Felizmente, anoto muitas coisas sobre o que leio, não apenas no Goodreads, mas também no meu sketch book.

Primeiro, Ana Cristina César e sua Poética, lançada em 2013 pela Companhia das Letras. Na época, lembro ter ficado com uma imensa vontade de ler, mas parecia algo meio sem sentido me atirar em algo que parecia ser uma “moda”. Porque eu não tinha conhecimento de quem era essa mulher. O suicídio dela, aos 31 anos me atraiu de certa forma. Mas existem momentos.
Dois anos depois do furor inicial, embarquei nesses versos, nessas linhas desconexas que arrebatam a gente. Pelo menos em mim a repercussão foi enorme.
Sua produção abarca tanto poesia quanto prosa, essa geralmente em forma de cartas, delineando um “a quem”.
Imagens bonitas se formam tanto nos relatos extensos e intensos quanto nos registros sintéticos como em “recuperação da adolescência”: é sempre mais difícil/ancorar um navio no espaço.”

Não apenas desconexa, a poesia da Ana C. é repleta de lacunas. Palavras que apenas a gente pode imaginar aqui ou ali. Gostei do termo que ela usou para os diários: “cadernos terapêuticos”. Curti o modo como ela volta no poema e risca tudo, inclui coisa, puxa uma flechinha, ou faz um xis para exterminar tudo. Carnais, metapoéticos, Ana C. nos carrega por uma viagem intensa ao corpo e ao poema, quase um só:

olho muito tempo o corpo de um poema

até perder de vista o que não seja corpo

e sentir separado dentre os dentes

um filete de sangue

nas gengivas

Passemos para os ensaios de George Orwell. (review curta e grossa que fiz no Goodreads)

Em Como morrem os pobres e outros ensaios,  Orwell prova a sua versatilidade como escritor. Os clássicos 1984 e Animal Farm ficam mais claros para o leitor, pois são fruto de uma reflexão profunda ao longo dos anos do autor. Experiências horrendas em hospitais, no colégio interno, reflexões nada inocentes ou gentis sobre futebol (com afirmações chocantes, porque reais), a questão da linguagem compõem as temáticas da obra.

Eliane Brum, Uma duas

Em muito tempo, muito tempo mesmo, eu não me surpreendia e agonizava tanto com uma história. Não sei bem qual é o lance da Eliane. Tá, sei que ela é jornalista e tal tal tal, mas não pesquisei a fundo se isso é autobiografia, isso ou aquilo, pouco importava. Só entendi que foi intenso. Tendo sido vivido ou não vivido, fantasiado, é um tema sobre o feminino muito  delicado, um tabu, talvez. Uma espiada, só para confirmar o que tô te dizendo:

“A risada do braço. O sangue saindo pela boca do braço. Quantas vezes eu já me cortei? E a voz da mãe no lado avesso da porta. Laura. Rasgo mais uma boca. Meu sangue garoa junto com a voz no piso do quarto. Laura. Minha mãe sempre foi assim. Ela sempre sabe o que estou fazendo. Começo a escrever este livro enquanto minha mãe tenta arrombar a porta com suas unhas de velha. Porque é realidade demais para a realidade.Eu preciso de uma chance. Eu quero uma chance. Ela também. Quando digito a primeira palavra o sangue ainda mancha os dentes da boca do meu braço. Das bocas todas do meu braço. Depois da primeira palavra não me corto mais. Eu agora sou ficção. Como ficção eu posso existir. Esta é a história. E foi assim que se passou. Pelo menos para mim.” – Primeiro capítulo do romance.

Depois disso aí é grudar até que tudo acabe. Não é bom para ser lido em maus momentos, mas… quem sabe ajude. Curiosa por outros trabalhos da autora, li Meus desacontecimentos. Curti. Gosto da forma como ela se expressa, às vezes um pouco exageradamente apaixonada pela palavra. Entretanto, achei umas partes muito parecidas com Uma duas (romance de estreia, diga-se de passagem) daí fiquei pensando se ela sempre iria misturar as histórias todas. Meus desacontecimentos, sim, parece ser autobiográfico “de nascimento”.

Notinhas rápidas:

As cidades invisíveis, Italo Calvino

Calvino é expert em criar teias, mundos – cidades. História extraordinária que me passou aquela sensação de estar lendo As mil e uma noites, só que Sherazade é Marco Polo.

O corcunda de Notre Dame, Victor Hugo

É uma boa história, Hugo traz à tona diversas camadas sociais e suas particularidades. Não dá para esperar algo similar ao grande clássico d’Os miseráveis, porque aquilo lá é impossível de se colocar em palavras. Mas é o mesmo Hugo, sem dúvidas! 🙂

Poemas do Borges: O outro, o mesmo e Os conjurados 

Em ambos, Borges mostra que a poesia é, também, sua zona de conforto. Dialogando com outros poemas, tempos e autores, em O outro, o mesmo traz um poema intitulado Edgar Allan Poe e um que gosto bastante, O mar.

Os conjurados também segue essa mesma linha. Uma coisa muito presente na poesia dele são os duelos, as espadas. Um cantar de causos descompromissados, com grande maestria.

Deixei muita coisa de fora, apenas queria tirar a poeira virtual do campo.

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