O homem duplicado, de José Saramago – Desafio Literário do Tigre Abril

Olá,

Hoje comento O homem duplicado, de Saramago, e suas categorias no #DLdoTigre são:

* Livro que virou filme

* Para ler antes de dormir

* De autor estrangeiro

Na contracapa da edição da Companhia das Letras [de Bolso] diz o seguinte: “O que está em jogo é a perda da identidade numa sociedade que cultiva o individualismo e, paradoxalmente, estabelece padrões estreitos de conduta e aparência. Em O homem duplicado, José Saramago constrói uma ficção extraordinária, apoiada numa questão extremamente atual e inquietante: a perda do eu no mundo globalizado” 

O absurdo da história de Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, introspectivo, um cara não muito dado a saídas e amizades surge como um crescente de eventos os quais matutamos ao longo da narrativa, mas já adianto que o desfecho é surpreendente. Não darei spoilers.

Em geral, eu nunca fui muito dada a reparar em narradores – a menos que fossem extremamente intrometidos, parciais, isto é, ativos explicitamente na história. Depois de ter lido Os miseráveis e, mais ainda, ter lido A tentação do impossível, do Vargas Llosa sobre o clássico do Hugo, no qual ele elege o narrador como grande personagem, passei a dar mais atenção para os narradores que aparentemente estão só dando continuidade à trama. Obviamente não é o caso do narrador presente em O homem duplicado. Ele interfere bastante, faz considerações contundentes e aborda a questão do indivíduo mais do que o fluxo de consciência de Tertuliano Máximo Afonso – mesmo sendo complicado discernir na forma do Saramago narrar quem é quem e o que é o que.

Em síntese, esse romance é sobre um homem que, um dia, assiste a um filme (por recomendação de um colega de trabalho) e repara em um ator secundário exatamente igual a si. Obviamente, tal semelhança, pior, tal exatidão mexe com os sentidos do professor de História. Depois de refletir muito, acha um meio de entrar em contato com a produtora que lhe dá o endereço de seu duplicado, Daniel Santa-Clara, ator. Pseudônimo de António Claro. Achei muito louco esse lance do duplicado ser um ator – alguém que interpreta tantas outras vidas, além do pseudônimo. Isso nos dá um nº infinito de possibilidades (pelo fato de sua profissão) + Daniel Santa-Clara + Tertuliano Máximo Afonso em um mesmo universo.

Essa história é apresentada pelo narrador que ora parece conhecer tudo até o fim (porque narra tanto no passado quanto no futuro) e ora parece descobrir os eventos aos pouquinhos, assim como nós os desvendamos também a cada virar de página.

Assim começa o narrador: “O homem que acabou de entrar na loja para alugar um cassete vídeo tem no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso, nada menos que Tertuliano Máximo Afonso. (…) Na verdade, Tertuliano Máximo Afonso anda muito necessitado de estímulos que o distraiam, vive só e aborrece-se, ou, para falar com a exactidão clínica que a actualidade requer, rendeu-se à temporal fraqueza de ânimo ordinariamente conhecida por depressão. (…) O que por aí mais se vê, a ponto de já não causar surpresa, é pessoas a sofrerem com paciência o miudinho escrutínio da solidão (…)”  *grifo meu

Como se pode notar, das angústias de Tertuliano, o narrador “puxa uma flechinha” à parte para falar de algo que ocorre não apenas com esse ser, mas com muita gente da nossa época. Lançado em 2002, já está inserido no que chamamos de período pós-moderno, embora independente de qualquer classificação em período literário a obra fala por si mesma, aborda a questão do que é ser “eu” hoje. E o como um indivíduo reage ao ver uma cópia de si. Como o texto da contracapa diz, o mundo globalizado exige, paradoxalmente, uma individualidade – uma personalidade forte e inconfundível – que ao mesmo tempo siga a uma padronização. Você tem que ser diferente, mas igual. Ou diferente, mas num dado limite. Tudo o que ultrapasse ou não alcance essas fronteiras, está fora de cogitação. Quando um homem encontra outro exatamente igual a si mesmo, com uma vida mais atraente, é verdade, ele surta. Só pode surtar. E, como consequência, leva o seu duplo a mesma agonia.

Entre tantas epifanias do narrador, elegi uma que achei muito pertinente:

“Também em tempos que já lá vão, houve na terra um rei considerado de grande sabedoria que, em um momento de inspiração filosófica fácil, afirmou, supõe-se que com a solenidade inerente ao trono, que debaixo do sol não havia nada de novo. A estas frases não convém tomá-las nunca demasiado a sério, não se dê o caso de as continuarmos a dizer quando tudo à nossa volta já mudou e o próprio sol já não é o que era. Em compensação, não variaram muito os movimentos e os gestos das pessoas, não só desde o terceiro rei de Israel como também desde aquele dia imemorial em que um rosto humano se apercebeu pela primeira vez de si mesmo na superfície lisa de um charco e pensou, Este sou eu.”

O livro virou filme em 2013, estrelado pelo carinha lá de Brokeback Mountain (Jack Gyllenhaal). Eu não entendi muita coisa pelo início do filme, achei muito confuso, daí resolvi ler. Entendi. Curti.

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