Da inconstância e da questão de honra

Estou passando por um momento de instabilidade leiturística tremenda. A questão é que já peguei vários livros e larguei porque foram tornando-se chatos no meio do caminho. Exemplos: Grandes esperanças, do Dickens (ele sempre fica chato – ou não estou pronta, pode ser) e Moby Dick, do Melville. Comecei os dois super animada, mas agora já li várias coisas depois e os deixei lá, parados.

O Melville é até explicável, porque nunca simpatizei muito com histórias marítimas. Mas aquele início, no qual o Ishmael diz o motivo pelo qual ele vai ao mar é sensacional. O trecho em que ele conhece Queequeg, um canibal, é muito interessante. É a aproximação de duas pessoas extremamente diferentes, em uma situação insólita com doses de divertimento. Daí você segue. De repente, vai ficando tudo muito descritivo demais e com poucos insights que habitam o início da narrativa e que fazem você marcar com lápis no livro.

O Dickens sempre começa com algo interessante e cai no chatismo de alguma maneira. A tale of two cities começa triunfal e vai perdendo a força, em Grandes esperanças, igualmente, o início é tentador, mas depois fica chato. Como já mencionei, pode ser que o problema esteja em mim e não nos livros. Posso fornecer uma lista imensa de livros que eu comecei e larguei umas dez vezes, mas que depois de lidos tornaram-se a minha paixão: Admirável mundo novo Incidente em Antares são exemplos disso.

Aí desisti mesmo (por um tempo).

Ainda não consigo largar um livro pela metade sem sentir uma ponta de culpa. É algo tão simples pegar uma história e acompanhar até o fim. Claro que não dá para continuar com algo chato só porque tem que continuar.

Em janeiro, ganhei o Livro das mil e uma noites (vol 1) e comecei a ler, daí veio a defesa da dissertação e um monte de outras coisas e parei. Como ele possui um monte de histórias independentes dentro da história principal, foi fácil retomar e nesse findi dei cabo dele. Não tem como falar muita coisa, é espetacular. Muito diferente da versão que eu lia quando era criança, certamente. As histórias estão sempre permeadas por crueldades e essas crueldades escondem ensinamentos, muitas vezes. Outra coisa interessante é o peso da oralidade. Sherazade conta a história e dentro dessa história uma pessoa narra. Essa pessoa que narra é sempre marcada, então você sempre sabe quem está falando.

A questão de honra que vai encerrar 2014 (espero!) será O caminho de Guermantes, terceiro volume de Em busca do tempo perdido. Para focar no Proust é preciso muita dedicação, porque você precisa ler um monte de outras coisas e às vezes quer uma narrativa diferente, menos viajante. Não vai ser um sacrifício, mas apenas um desafio para encerrar esse ano.

Em breve: reading resolutions 2015; best of 2014 e outras bobagens tradicionais.

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