A outra face: Drummond cronista

Depois de muito – muito tempo mesmo! – às voltas com a poesia do Drummond, estou numa fase de leitura de suas crônicas. O resultado? Não poderia ser menos do que EXCELENTE.

Vamos aos detalhes:

Já concluí Boca de luar e estou a mais del mezzo del camin de Os dias lindos. O que o Drummond expressa nos seus poemas muitas vezes têm ligação com o que já apareceu em crônicas.

Por exemplo. “A estranha (e eficiente) linguagem dos namorados” (Boca de luar) é uma prévia do autor para um livro lançado depois, chamado Declaração de amor: canção de namorados. Os temas das crônicas repetem, obviamente,  temas de poesia. O mais interessante é que esses textos em prosa, publicados originalmente no Jornal do Brasil servem para reforçar o Drummond observador, que aponta as mudanças dos tempos modernos, suas consequências e o faz de modo muito bem humorado, irônico, brincando consigo mesmo e com as miudezas do cotidiano.

Um trecho de “O frívolo cronista”, uma das minhas crônicas preferidas (quase todas são) de Boca de luar:

“Um leitor de Mato Grosso do Norte escreve deplorando  a frivolidade, marca registrada desta coluna. Hoje não estou para brincadeira, e retruco-lhe nada menos que com a palavra de um sábio antigo, reproduzida por Goethe em Italianische Reisen. Vai o título em alemão, para maior força do enunciado. Os que não sabemos alemão temos o maior respeito por essa língua. A frase é esta, em português trivial: ‘Quem não se sentir com tutano suficiente para o necessário e útil, que se reserve em boa hora para o desnecessário e inútil’. É o que faço, respaldado pela sentença de um mestre, endossada por outro. 

E vou mais longe. O inútil tem sua forma particular de utilidade. É a pausa, o descanso, o refrigério do desmedido afã de racionalizar todos os atos de nossa vida (e a do próximo) sob o critério exclusivo de eficiência, produtividade, rentabilidade e tal e coisa” (ANDRADE, 2009, p. 174).

“Defendendo” o inútil, Drummond ironiza a sua escrita que nada versa ou prosa de modo inútil e mesmo o que poderia, sob alguma hipótese ser considerado inútil, é útil. As várias crônicas sobre a nossa relação com a natureza, com o próximo, Drummond é um dicionário de relações inter e intrapessoais muito vasto para afirmarmos que está a narrar frivolidades. Não sei até que ponto esse leitor do Mato Grosso do Norte possa ser uma verdade na biografia do Carlos, mas acho que ainda há uma pequena parcela de pessoas (muitas delas de suma importância no cenário da literatura) que afirmam que Drummond era desligado dos temas sociais, por exemplo (sim, se ouve isso de vez em quando).

Drummond coloca a modernidade e suas implicações não apenas na sua poesia, mas nas suas crônicas. Põe o movimento da vida do homem  moderno dentro do cenário do homem moderno quando escreve no jornal que o homem moderno lê tudo aquilo que está ocorrendo (ou vai ocorrer) com esse homem. Moderno.

Das histórias contadas em Os dias lindos, “Corrente da sorte” tem muito a dizer sobre o controle de uma força maior (você decide se chama de capitalismo, mídia ou governo) sobre a vida das pessoas comuns. “História de amor em cartas”, no formato epistolar, tem um resultado final inesperado. Lembrou o que Edgar Allan Poe fez em “A carta roubada” (mesmo o tema não sendo amor).

Na seção O homem e a linguagem de Os dias lindos, nas crônicas “O homem, animal exclamativo”, “O homem, animal que pergunta”, “O homem no condicional” e “O homem e suas negativas” são de uma genialidade inefável. Realmente, o Carlos era genial. É genial.

Uma das crônicas (ou contos) que curti muito de Os dias lindos é “Prazer em conhecê-lo”. Deixo um pedacinho do texto:

“- Puxa, vocês ainda não se conhecem? Este é o Marques, amigo velho de guerra. E este aqui é o Silva, um amigão.

– Ah, muito prazer em conhecê-lo.

– Oh, o prazer é todo meu.

– Perdão, todo seu, não. Me deixe sentir também um grande, um enorme prazer em conhecê-lo, rapaz. O Inácio sempre me diz maravilhas a seu respeito.

– O Inácio também põe você nas nuvens. Por isso, é natural que eu sinta o maior prazer em conhecê-lo.

– Bem, já diminuiu um pouco, e eu fico satisfeito com isso. Sempre deixou algum prazer para mim. Me desculpe, mas por que seu prazer é maior?

– Que é isso, vocês estão discutindo para saber quem ficou mais contente do que o outro, por  serem apresentados?” (ANDRADE, 2013, p. 113).

Sim, a história continua nessa vibe aí dos dois amigos de Inácio discutindo a partir dessa simples frase. É hilário!

Enfim, é muito bom conhecer mais essa faceta do Drummond e poder compartilhar um pouco das suas grandes criações. As crônicas de Boca de luar são bem curtas, a leitura flui muito bem. Já em Os dias lindos, temos narrativas um pouco maiores, mas também muito fluentes.

Referências:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Boca de luar. 11ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Os dias lindos. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Fui!

Edições maravilhosas, os textos... nem se fala :)

Edições maravilhosas, os textos… nem se fala 🙂

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