O resto é silêncio – Érico Veríssimo

Buenas,

Já faz um tempão que não escrevo nada e isso porque fiquei bem enrolada lendo coisas acadêmicas e eticétera e tal.

O livro que comento nesse post sempre foi motivo da minha curiosidade. Isso porque em 2007, tempo em que estava estudando para prestar o vestibular 2008, O resto é silêncio estava na lista de livros selecionados para a prova de literatura. Bem, a gente sabe como é a vida. O resumo salva quando tu tens dez questões de marcar.

O enredo, bem simples: uma moça atira-se do décimo terceiro andar do Edifício Império, em Porto Alegre e esse evento é apresentado a partir da perspectiva de sete personagens diferentes.

A bonequinha curtiu o livro e super recomenda.

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Uma curiosidade é que em 1941, Érico Veríssimo presenciou essa mesma cena: uma moça atirando-se do alto de um prédio. No prefácio da 15ª edição (a que eu tenho, ganhei do amigo Régis) o Érico comenta esse fato e mais uns dados interessantes sobre a composição desse livro:

“Num anoitecer de outono do ano de mil novecentos e quarenta e um, estando eu a conversar com um amigo numa das calçadas da Praça Senador Florêncio, no coração de Porto Alegre – vi precipitar-se, de um dos andares médios de um edifício fronteiro, uma coisa com forma humana que foi cair no meio da rua.” 

Os personagens e suas respectivas funções são apresentados antes da narrativa iniciar. Dá uma impressão das peças de teatro, como as de Shakespeare. Em tempo, “o resto é silêncio” é a frase que encerra Hamlet, dita pelo próprio, quando está prestes a morrer.

Partindo para o lado pessoal, sempre digo que o Érico Veríssimo tem uma grande capacidade de prender o leitor, independente do assunto. Por essa razão, gostei bastante desse livro, em que as personagens são colocadas de modo quase caricato. Isso porque algumas se desprendem da sua própria condição, a exemplo de Marina Rezende, esposa de um compositor famoso, Bernardo Rezende. Marina, já no final do romance, se dá conta de que pode mudar o próprio destino. Ou melhor, a vida, pois se dependesse do destino, ela continuaria a viver os passos ensaiados de sua vida infeliz ao lado de Bernardo.

Ao longo do romance, temos um panorama bem detalhado da vida dessas personagens. O que pensam, aquilo que fazem na vida pública e na vida privada, a discrepância entre atitude e essência etc. O que me incomodou um pouco foi a ênfase nesse desenvolvimento “dos outros.” Joana Karewska, a suicida, aparece como um fantasma que suscita outros fantasmas na mente desses caracteres. Para Marina, Joana assume o rosto de Dicinha, a filha falecida. Para Aristides Barreiro, a moça que se atira do prédio é sua amante Moema.  De modo que sabemos pouco de Joana no início, no meio e no fim da história.

No espetáculo desse universo, os desfavorecidos continuam desfavorecidos e os ricos continuam ricos. Não que eu espere da ficção uma obrigação de justiça que não podemos esperar do mundo real… Mas acho que me sentiria mais aliviada se o menino Sete tivesse conseguido entregar a rosa para a sua mãe, se Aurélio Barreiro tivesse sofrido um acidente sério só para deixar de ser babaca e que Norival Petra tivesse sido preso na frente de todo mundo e ter a vergonha como marca irreparável na sua história.

Uma das passagens mais legais do livro, para mim, é essa conversa entre Aristides Barreiro e Roberto (um jornalista com ideias comunistas/socialistas):

– Sempre gostei de ler coisas sobre a Paris de antes da Primeira Guerra… Que cidade, seu Roberto! Corria champanha como água, os cafés, os teatros, os bulevares andavam cheios de gente espirituosa e alegre… uma despreocupação…um charme…

Enquanto isso – pensava Roberto – havia gente morando nos esgotos, vegetando em mansardas sórdidas. A miséria e doença devastavam as classes baixas enquanto velhos ricos e senis bebiam champanha nos sapatinhos de cetim de prima-donas e vedetas. 

(…)

Aristides suspirou de sincera saudade. Roberto escutava-o num silêncio constrangido.

– Seu Roberto, esse era o meu mundo, o mundo com que sonhei. Um mundo onde havia lugar para o quixotismo, para o romance, para o belo gesto. O mundo que chorava e ria com “Cyrano de Bergerac”, com “La vie de Bohême”. Hoje está tudo mudado.

Houve uma pausa, ao cabo da qual Roberto perguntou:

– Mas o senhor nunca pensou que esse mundo era ilusório, era uma contrafação, uma…?  – Faltou-lhe o termo.

-Nunca pensou que enquanto um plano se agitava esse mundo de opereta, em outro nível mais baixo havia gente que nunca provou champanha nem caviar, pobre gente que nem sequer tinha cama e pão?

(p. 267-268)

Esse trecho me interessou porque na maior parte da narrativa temos acesso ao mundo de riquezas, glórias e igualmente a podridão daqueles que detém o poder a exemplo de Aristides, Norival e o desembargador Lustosa.

Podridão porque eles podem esconder-se atrás de falsos argumentos, mas nós, leitores, os cercamos por todos os lados.

Quanto à ideia de ter essa narrativa descentralizada (embora inicialmente pensemos justamente na convergência de histórias para o suicídio de Joana), termino com uma citação do Tônio Santiago. Enquanto elaborava essa resenha, fiquei pensando “o Érico deveria ter explorado mais o suicídio, falado mais da Joana, dito como ficaria o caso do Norival, e daquela gente toda). Mas aí, relendo esse trecho, penso que ele não era pra ter explicado nada mesmo. O resto é silêncio.

– Mas será que não descobriram ainda que antes de mais nada o que eu quero é contar histórias? Nunca declarei que desejava salvar o mundo, fundar uma religião ou criar um sistema filosófico. Disse? Não disse. Pois é. Escrevo pela mesma razão por que uma galinha bota ovo. Por fatalidade biológica. (p. 72)

Uma coisa curiosa: ao longo do romance encontramos sobrenomes que aparecerão em outras obras do Érico, a exemplo de Cambará e Terra, ambos de O tempo e o vento, e Campolargo, de Incidente em Antares. Não surgem como personagens determinantes, mas a aparição no livro já merece nota.

Desligo.

Referência: VERÍSSIMO, Érico. O resto é silêncio. 15ª ed. Editora Globo: Porto Alegre, 1980.

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