Mais uma história de sociedade utópica

Em um universo desconhecido pela humanidade, mas localizado bem próximo ao Planeta Terra, acontecimentos fabulosos seriam capazes de divertir até o mais cético e enfadonho dos homens. O que mais intriga a respeito dessa história que vou lhes contar é exatamente como uma região tão parecida com a nossa possa ser tão diferentemente concebida.

Akcfl é o planeta de um país só. Os habitantes, 500 mil – e olhe lá, são bem similares a nós, humanos, salvo alguns detalhes. Suas cabeças são incrivelmente desproporcionais, difícil suportar o peso sem alguma dificuldade. Seus olhos não enxergam. São globos brancos e ausentes de percepção visual. Contudo, possuem sensores de frio, calor, objetos sólidos que se aproximam, etc. Apenas não conseguem enxergar o ambiente à sua volta. Seu prazer estético deriva justamente das outras formas de sentidos. A isso, chegaremos logo mais.

Quero explicar o motivo da cabeça extremamente enorme. Bem, para o corpo humano, digo, para qualquer vida existente no Planeta Terra, cientistas são capazes de encontrar uma razão para cada componente, cada órgão; quais se relacionam entre si, o que acontece se retirarmos tal parte, enfim, essas indagações. Para nossos seres de Akcfl não é diferente. Seus imensos crânios produzem e executam ideias com inteligência e consciência. Sempre. Não existe má ideia, má decisão.

Isso porque em Akcfl não existe noção de tempo. Não há pressão. Os habitantes envelhecem, sem dúvida,  perdem algumas capacidades com o decorrer de um período desconhecido para eles mesmos. É como se vivessem sempre o mesmo dia, porém eles mudam diante do novo sol que se apresenta. Interessante essa impressão do mundo…Existem, é isso.

Todavia, não podemos tomar suas vidas como existências enfadonhas, sem curiosidade e sentido. Pelo contrário! Vivem em sua plenitude, justamente pela capacidade de assimilar suas ideias de forma que resultam em algo perfeito. Não há arrependimentos, não há passo em falso.

Apreciam, com o sentido possível – o ‘tato visual’ – o sol rosado que nasce lá ao norte de Akcfl (é tudo bem diferente com relação à posição das coisas todas).

Em um belo momento de suas vidas, tudo seguia bastante normalmente quando, a uma velocidade incalculável, desce uma criatura estranha em solo do planeta solitário. Se tratava de um homem geneticamente modificado, descartado pelos cientistas por ter se tornado bastante violento. A meta dos pesquisadores era reproduzir em massa um número absurdo de seres humanos capazes de trabalhar 24 horas por dia, 31 dias ao mês. O projeto deu errado e a opção “descartar” (imagine) foi acionada.

Sobre essa criatura transgênica não devo adicionar muito – viveu algum tempo entre os habitantes de Akcfl, falecendo alguns meses depois, em virtude de toda uma atmosfera diferenciada; além do próprio modo de vida livre das pressões de tempo e produtividade impostas em seu planeta de origem.

No entanto, os cientistas recebiam diariamente uma atualização em um GPS a respeito da localização do experimento. Perceberam que o homem-mutação conseguiu viver por alguns meses em uma mesma localidade.

O resultado não poderia ser outro: montaram em seus foguetes brancos, rumo ao espaço, deve ter vida lá fora, um planeta novinho, precisamos de uma alternativa B!

O final dessa história já conhecemos como a palma de nossa mão. Espere um momento… Por acaso conhecemos a palma da nossa mão, desse modo que afirmamos conhecer? Estamos tão seguros assim de suas linhas?

Enfim.

As sociedades utópicas existem em nossas mentes para nos dar uma pequena parcela de esperança, um desejo pueril de que tudo mudasse e fosse possível.

Alimentamos utopias com muito gosto porque o mundo real é fome na acepção usual e metafórica. A realidade é frágil e triste.

Akcfl nem existiu, mas acabou.

Que final infeliz…

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