Octavio Paz e Os filhos do barro

Pra quem ainda não aproveitou o Black Friday, pode correr no site da editora Cosac Naify e comprar esse livro que estou resenhando por apenas R$25. Mas ele valeu os quarenta e tantos que gastei. Enfim…

Já conhecia o trabalho do Octavio Paz como crítico, ensaísta de literatura através do magnífico O arco e a lira. Sem sequer saber do que se tratava, resolvi ficar com Os filhos do barro e foi uma feliz descoberta abrir a primeira página e ler o seguinte:

“(…)A matéria deste livro é um prolongamento da resposta que tentei dar à terceira pergunta.” [refere-se aqui a questão ‘Como os poemas se comunicam?’, feita em O arco e a lira] “Neste livro procurei descrever, pela perspectiva de um poeta hispano-americano, o movimento poético moderno e suas relações contraditórios que chamamos de “modernidade””.

Nada melhor para uma pessoa que lida diariamente com a poesia modernista e fascinante do Drummond.

Ponto alto do livro:

A linguagem do Octavio Paz não é truncada. As mais variadas reflexões artísticas, filosóficas, políticas e religiosas não estão fadadas a perderem-se em uma eloquência academicista. A partir de uma problematização do tempo, no qual pontua a diferença de perspectiva temporal das sociedades primitivas e a nossa, demonstra como a primeira, apega-se ao passado, enquanto a nossa, está de olho firme no futuro. Mudança é a palavra de ordem da poesia moderna.

Entretanto, outros artigos presentes na obra discutem assuntos que acabam confluindo para esse aspecto de percepção do tempo. A substituição da religião cristã por qualquer outra coisa – mas sem nos libertar de algo que fosse ‘maior’, ‘além’, e um estudo minucioso das vanguardas. Interessante descobrir que o modernismo hispano-americano coincidiu com o Romantismo e Simbolismo europeus. Para quem se interessa por Ezra Pound e T.S. Eliot, Octavio Paz apresenta um panorama de como os dois escritores recuperam temas antigos.

O fio condutor de Os filhos do barro, além das questões que mais atormentam a humanidade como o tempo, as religiões e a política, pode ser descrito como o paradigma da mudança que, ao final, converte-se no da conservação.

A era moderna direciona-se para o futuro e é nesse tempo o lugar onde está a perfeição. Entretanto, a nossa época nos faz refletir sobre esse futuro – sendo ele uma ameaça – e a sociedade se volta para o presente, atrasando [tentando…] a chegada ao futuro destruidor.

Duas citações ilustram a postura de nossa era diante da arte, segundo o autor:

“Hoje somos testemunhas de outra mutação: a arte moderna começa a perder seus poderes de negação. Há vários anos suas negações não passaram de repetições rituais: a rebeldia convertida em procedimento, a crítica em retórica, a transgressão em cerimônia. A negação deixou de ser criadora. Não digo que estamos vivendo o fim da arte: vivemos o fim da ideia de arte moderna.” (PAZ, 2013: 154)

e, para tratar do futuro como ameaça iminente…

“O futuro não é mais depositário da perfeição, e sim do horror. Demógrafos, ecologistas, sociólogos, físicos e geneticistas denunciam a marcha para o futuro como uma marcha para a perdição. Alguns preveem o esgotamento dos recursos naturais, outros a contaminação do globo terrestre, outros uma labareda atômica. Não me interessa saber se essas profecias são exageradas ou não: o importante é que são expressões da dúvida geral sobre o progresso. É significativo que num país como nos Estados Unidos, onde a palavra mudança foi objeto de veneração supersticiosa, agora apareça outra que é sua refutação: conservação. Os valores que mudança irradiava agora se transferiram para conservação. O presente faz a crítica do futuro e começa a desalojá-lo.” (PAZ, 2013: 155-156)

Ver: PAZ, Octavio. Os filhos do barro. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

Indico a leitura não apenas para os estudiosos em poesia moderna, mas todos envolvidos com a literatura contemporânea, seja ela prosa, poesia, pintura. A visão expressa por Octavio Paz é abrangente sem ser um ‘apanhado à louca’. Ele fala de tudo com muita consistência e num caminho que alia história, literatura e consciência sobre esses dois itens, explorando suas relações.

Os filhos do barro, de Octavio Paz

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