O otimismo de Cândido e uma flor para William Faulkner

Salut, readers.

Como prometido, tenho um comentário a fazer sobre dois textos nesse post.

O primeiro é sobre Cândido ou o Otimismo, de Voltaire e o segundo é “A rose for Emily”, de William Faulkner.

Começo pelo mais “idoso.”

Voltaire está em uma listinha negra de alguns livros considerados “essenciais” para a formação do leitor. Pois bem, o ditado é “não julgue o livro pela capa”, mas existe tal preconceito inclusive com nome e autor. Ao saber que se tratava de uma espécie de reposta filosófica às ideias ‘pra lá’ de otimistas do Leibniz, imaginava eu, pobre criatura infeliz, se tratar de um texto enfadonho construído com o único propósito de contrariar o alegrinho Leibniz e deixar o leitor mais cansado que satisfeito.

Contudo, Voltaire me deu um soco na cara de mão fechada. Sim, pois é uma infâmia tecer qualquer comentário negativo sobre o livro. Para contrariar meus preconceitos, o texto é ótimo, fluido e as ideias do filósofo são apresentadas de forma irônica e inteligente, sem trazer aquele fardo erudito o qual poderia ter colocado tudo a perder.

Vamos ao plot: Cândido é um jovem que fora acolhido no castelo do importante barão de Thunder-ten-tronckh na cidade de Westphalia. No castelo, conviva com o barão, a baronesa, a filha deles, Cunegunda (sim, que nomezinho é esse!) e uma espécie de “oráculo da família”, Pangloss. Para esse senhor, o qual era visto como um filósofo por suas ideias aparentemente razoáveis, pensava ser o mundo e todas as coisas realizadas da melhor forma possível. Assim, as desgraças não importavam, pois sempre culminariam para que algo bom acontecesse. Aquele mundo era o melhor em que se poderia viver.

Sendo Cunegunda uma moça muito bela, obviamente Cândido interessou-se por ela e tal envolvimento deixou os pais da donzela bastante enfurecidos, e o barão acabou expulsando Cândido do seu castelo.

A partir de então, são inúmeros os percalços enfrentados pelo rapaz. Guerras, apreensões, fome, violência por todos os lados e os ensinamentos de Pangloss ressoando:

“Pangloss ensinava a metafísico-teólogo-cosmolonigologia. Provava, admiravelmente, que não há efeito sem causa e que, neste melhor dos mundos possíveis, o castelo do monsenhor Barão era o mais belo dos castelos e a senhora baronesa a melhor das baronesas possíveis.”  (VOLTAIRE, 2012:08)

No entanto, em alguns momentos, Cândido parecera fraquejar e pensar ser impossível ser esse o melhor dos mundos, porque os indivíduos são sempre assaltados pela violência, a miséria e morte. Depois de todos os obstáculos “superados”, depois de encontrar com muitos sujeitos cujas histórias não denotam nem um pouco de “melhor mundo possível”, Cândido finalmente consegue casar com Cunegunda, embora ela já esteja velha e feia.

Trata-se de um romance (ou novela, depende da visão que você possui de gênero) picaresco. Se tomarmos as características elencadas pela wikipedia, podemos dizer que Voltaire escreveu Cândido para enquadrar-se em todas, inclusive na falsa autobiografia, embora tudo seja narrado em terceira pessoa. O que ocorre nesse caso é a omissão de Voltaire. Ao ler a primeira folha, temos: ” Traduzido do alemão pelo Senhor Doutor Ralph.” O autor se abstém de qualquer compromisso, não ousou colocar o nome na capa temendo ser preso ou algo do tipo. A “autobiografia” seria de quem esteve lá para presenciar os acontecimentos ocorridos com Cândido.

Lendo Cândido, lembrei-me de Reinaldo Arenas e O mundo alucinante em que o personagem também passa por um sem-fim de eventos absurdos (o compromisso, todavia, é diferente: trata-se de um romance histórico pós-moderno, ou metaficção historiográfica se usarmos os termos de Linda Hutcheon. Eu, particularmente, acho que estamos arrumando termos demais para tentar designar a mesma coisa: a literatura de qualidade.)

VOLTAIRE

Acredito ter falado o bastante sobre esse livro. Sem querer estragar tudo, adianto: Cândido parece não perder o otimismo, entretanto, percebe ser necessário ter uma carta guardada na manga, só por garantia.

Vamos ao segundo texto.

Agora, pensando no que escrever sobre esse conto do Faulkner, me pergunto: um conto é “só um texto pequeno” ou é uma obra? Vamos pensar em um poema. Para Octavio Paz, um poema é uma obra e temo ter que concordar plenamente com ele. Pensamos muito no tamanho das coisas e nem percebemos que, muitas vezes, o significado por mais comprimido que esteja, é sublime, é grandioso e supera qualquer julgamento de tamanho.

“A rose for Emily” é uma obra, em minha humilde opinião. Li esse conto em 2010, na disciplina de Literatura Americana. Li mal lido, diga-se de passagem. Com tantas disciplinas e leituras, percebo, hoje, não ter dado o devido valor a essa obra. Enfim, ficou guardado nos “xerox da graduação” com pouquíssimos grifos e anotações. Ontem, reencontrei as folhas e resolvi ler o texto com esses olhos de quem já se emocionou com Enquanto agonizo, do mesmo autor (e com canetas multicores para anotar tudo, esmiuçar o texto, mas com vontade). Parece-me que Faulkner tem um modo muito particular de lidar com a morte…

Em “A rose for Emily”, estamos também na cidade de Jefferson (a mesma em que Addie Bundren desejava ser enterrada em Enquanto agonizo). O conto é dividido em cinco partes e você precisa ter bastante atenção para perceber que todas elas são narradas por diferentes sujeitos. É um ótimo exercício ler cada uma delas tentando buscar indícios que identifiquem o tipo do narrador: se é mais velho, mais jovem, homem ou mulher.

Pois bem, Emily  é o último membro da nobre família Grierson. Assim como a decadência dos seus antecessores, com a morte do pai especificamente, temos o indício de que a aristocracia de outrora está em decadência. Após alguns conflitos com autoridades locais a respeito de impostos (“perdoados” pelo Coronel Sartori, mas que não fazem nenhum sentido para o novo xerife) Emily fica conhecida pela sua excentricidade. A única pessoa a transitar naquela casa (a qual parece um mistério para toda a cidade) é um negro serviçal, Tobe, o qual entra e sai com sua sacola de compras.

Nada substitui a leitura do conto e relatar vários detalhes irão servir de incentivo, espero. Em vida, o pai de Emily tratou de mante-la longe de qualquer homem. Todos os rapazes da cidade eram inferiores a ela. Assim, temos uma visão do quão “superiores” sentiam-se os Griersons. Após a morte do pai, Emily começa a ter uma relação, a qual não se sabe exatamente se resultará em casamento ou não, com Homer Barron, um empregado de classe baixa na cidade.

Pois bem, a história é realmente bizarra. Emily, sabendo da impossibilidade de casar-se com Homer (o qual alega ser “not a marrying man.”) compra arsênico na drogaria da cidade e, após algum tempo, envenena Homer e o mantém em sua casa por longos anos e, aparentemente, passou  todas as noites de longo período ao seu lado.

O conto, como vocês podem perceber, é total bizarro mesmo. Sabemos que há algo de estranho sobre Emily, sobre a casa fechada, cuja única prova de existência é Tobe e as luzes acesas à noite. Algo sobre o cheiro na casa da velha Grierson incomoda os moradores.

A história aborda, além da decadência da aristocracia no Sul dos Estados Unidos, a questão de como os cidadãos conseguem – ou não – lidar com essa queda e, mais: como são tratados os negros pós-abolicionismo. Em determinada parte do conto, o narrador relata que a comunicação de Tobe denotava “pouco uso”, dando a entender que Emily e seu servo não costumavam travar muitas conversas.

Emily é um símbolo de resistência. Não quer admitir sua pobreza, não quer admitir que Homer não seja seu marido. Os narradores, por outro lado, representam os olhares julgadores de vizinhos que compareceram no funeral da última Grierson especialmente motivados por uma curiosidade acerca daquela casa.

Pensando na rosa, em especial, lembrei do poema do Drummond, “A flor e a náusea.” Penso que a flor, símbolo de delicadeza e beleza, tem sido usado muitas vezes na literatura para colocar um pouco de magia naquilo que está deteriorado, acabado: podre, causando um paradoxo ou apenas um contraste nessa coexistência entre as coisas belas e as horrendas.

A imagem creepy de Emily e seu querido Homer

A imagem creepy de Emily e seu querido Homer

Era isso por hoje. Encerro com uns versos do poema supracitado do Drummond cujo sentimento é daqueles que “matam a pau.”

“Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”

(A rosa do povo, Carlos Drummond de Andrade)

 

 

 

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