O horror, o horror! de se trabalhar com literatura

No embalo do dia do leitor, um desabafo.

Preciso falar da desgraça dessa profissão que é: ser professor/pesquisador em literatura. Desgraça no bom sentido, não sei se existe. Não é bem uma desgraça. É uma agonia, um fantasma, um demônio.

Gostaria de ressaltar minha “inveja branca” (que inicia e acaba nesse post) dos leitores os quais denominamos “ingênuos.” Rimos de suas caras porque se atiram no Paulo Coelho, na Martha Medeiros e devoram 50 tons de cinza, espalham seus “trechos impactantes”, discutem, problematizam o simplismo. Nada contra. Não se pode é ficar na literatura média-baixa para sempre. Só que eles não estão nem aí. São felizes. Demoram o tempo necessário para ler Crepúsculo porque não precisam se preocupar se tem um Ulysses ESPERANDO (em capslock, tom de autoritarismo do clássico para conosco) para ser finalizado. Nem começado, na verdade.

Acabam um livro e sentem-se satisfeitos com a história, sem querer saber se o autor foi metaliterário demais, se o narrador era em primeira pessoa e poderia ser um enganador, estão pouco ligando para o tempo-espaço, como foram manejados. Leram. E isso foi o bastante.

Mas veja o que sobrou para o estudante-professor-pesquisador de literatura: ler tudo. Sim. Clássicos: todos os quantos forem possíveis. As novidades: sim, tudo, para poder falar bem ou mal, apontar tendências. Ler as teorias, os intertextos, as críticas, enfim, tudo mesmo.

Temos mais de 2.000 anos de literatura para colocar em dia, sem contar o que surge todos os dias nas prateleiras das livrarias. Resumos de internet muito nos bastam, se vivemos “encalacrados” com os clássicos e aquela ilusão do “você vai ler tudo, um dia.” Mas e autores como Luis Antonio Assis Brasil? Não ler o cara é sacanagem. Ele é bom, sabe o que está fazendo e sabe trabalhar as categorias da narrativa (ó a acadêmica aí falando mais alto). Da mesma forma outros autores novos, sejam eles nacionais ou não, está na nossa profissão: lê-los. Todos. E sermos críticos a respeito disso. Se pararmos de refletir sobre o que está surgindo, pobres estudantes do futuro. Nota: irão, sim, se ver diante de um limbo da crítica literária no Brasil preocupada em fazer resumo de livro. Coisas do nosso tempo, compreenderão.

Eu fui uma “leitora ingênua”, assim como muitas pessoas o são – talvez até pior! – sou muito feliz por ter cursado Letras e descoberto tanta coisa boa, tanto universo interessante para se adentrar sem medo (ou com medo, às vezes!), mas sinto falta da liberdade, da não pretensão de ler isso ou aquilo. Hoje em dia leio porque devo. A parte boa: não importa o que. Seja  Game of thrones ou Edgar Allan Poe; investigando assassinatos com a série da legista Scarpetta de Patricia Cornwell ou indo lá para Marte com o Ray Bradbury, tudo é trabalho.

Mas o clássico incomoda. Ele é a pedra no sapato. E muitas vezes, “você tem que ler o livro x” não se torna algo muito legal. Protela-se, vai-se lavar a louça ou carpir o tradicional campinho: às vezes, se desiste.

Já tentei iniciar a Divina Comédia [Inferno] mas não passo da quinta página. Aí, minto para mim mesma: não estou pronta para o Dante. Mas como assiiimmm? Eu TENHO que estar, no matter what. Aí [2], penso: não, realmente não é agora. Lembro-me do Admirável mundo novo e quantos verões foram necessários para que, em um inverno, conseguisse atravessar toda a sua complexidade e reflexão sobre o que somos. É essa a coisa boa e é a única razão que busco: o overthinking, o conhecimento do mundo à volta (ou o mundo à parte?).

Queria que todas as pessoas fossem leitoras em potencial. Não se imagina onde se pode chegar se tivermos um bom domínio, uma boa relação com as palavras. Elas podem te amar, te destruir, te salvar. O George Orwell tem um ensaio muito interessante, intitulado “Politics and the English language.” Talvez se todo mundo entendesse um pouco sobre o poder dessa coisa tão cotidiana – a palavra – seríamos uma coisa outra, certamente melhor.

Enfim, o que consome nossos espíritos, nós, pessoas “da literatura”, às vezes rotulados de esnobes, nerds ou “fazendo média”, é justamente essa impossibilidade de abarcar o todo. Não porque queremos ser os “cabeça” (pelo menos not me). Mas porque temos a noção da riqueza desse todo e o quão privilegiados seríamos se pudéssemos viver esse todo.

Um feliz dia dos leitores para os já leitores. E que POR FAVOR, apareçam os novos. Precisamos disso, urgentemente.

The big brother is watching you[please don't do it backwards]

The big brother is watching you
[please don’t do it backwards]

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2 pensamentos sobre “O horror, o horror! de se trabalhar com literatura

  1. Bom texto (ainda mais pra ti que é iniciante e talz). Só faltou falar a parte da (maldita!) filosofia que torna o “horror” mais horror ainda.

    PS: não entendi a parte do “don’t do it backwards” 😛

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