O Estrangeiro, Enquanto agonizo e 23 livros de poesia de Drummond

Para quem não está em greve, é momento de comemorar, o semestre finalmente acabou. Os que estão em greve aproveitam para tirar férias não planejadas. Nossa pós não fez greve, mas mesmo assim, em alguns momentos, fingi que nada estava acontecendo e lia umas coisas aleatórias para aliviar o peso de teorias e trabalhos.

Hoje falarei de três livros, um ainda em processo de leitura, os quais considero importantes, cada qual à sua maneira, apropriados para diferentes gostos.

O primeiro deles, é do autor argelino Albert Camus (se lê “Cami”) e leva o nome de O estrangeiro, talvez uma das obras mais conhecidas desse escritor juntamente com A peste e A queda. Enfim, nos detenhamos nessa novela, em especial.

O personagem principal se chama Meursault e o que impressiona, a princípio, seus colegas de trabalho e conhecidos (tampouco diria que Meursault é o tipo de pessoa que tem “amigos” no sentido usual que atribuímos à palavra) é a indiferença com a qual ele reage à morte da mãe. Idas e vindas, envolvimentos circunstanciais com pessoas de índole duvidosa, justamente por seu estilo “tô nem aí” de ser, Meursault se envolve em um assassinato e parece não ter – não querer – sair da condição de culpado.

Aconselho aqueles curiosos sobre o que é de fato o niilismo de Nietzsche, tão massivamente falado (é quase como falar de dialogismo e Bakhtin) pensem nesse personagem de Camus como a representação material de um niilista. Nada importa, nada no sentido mais profundo da palavra. A edição que tenho é da editora Record, coleção Best Bolso, bem barata e de ótima qualidade e fácil de manejar.

Passemos então ao segundo assunto desse post. Há algum tempo, fiquei curiosa para ler algo do Faulkner e, após ouvir meu amigo Régis falar que Enquanto agonizo era um livro muito bom (depois de fazer um resumo do que se tratava) resolvi comprar e encarar a leitura. A verdade é que muita coisa veio antes de engrenar o Faulkner. Um amor de Swann é um exemplo disso. Por ele, abandonei leitura obrigatória de mestrado e também o Enquanto agonizo. Enfim, falta pouco para concluir a leitura, mas o cerne do romance é interessante e o que importa, pelo menos para mim, é como Faulkner está contando a história. Se trata da família Bundren cuja função nesse momento, é enterrar a matriarca Adie Bundren na cidade (fictícia)  de Jefferson. Cada capítulo é composto por uma voz narrativa (grande parte dos filhos e do marido de Adie) diferente não apenas em termos de personagem, como também em termos de linguagem. Aparentemente, pode-se pensar que esses monólogos seguem determinada cronologia, o que é ledo engano. Lá pelas tantas surge a voz da própria Adie, portanto, voltando em um passado em que ela estava bem viva. Enquanto agonizo é bem isso mesmo: é um “enquanto lemos” agonizante pois diversas questões de relações pessoais estão sendo discutidas em torno desse trajeto e dessa tarefa de levar Adie até a cidade em que nascera, para descansar sua morte. A edição é da L&PM pocket, qualidade ótima e preço acessível.

O último, porém não menos especial, livro comentado de hoje é do meu poeta favorito, que será meu companheiro durante um bom tempo. Falo do carinha simpático (?) nascido em Itabira: Carlos Drummond de Andrade. A reunião de livros de poesia de Drummond organizada pela editora Record, coleção Best Bolso (a mesma de O estrangeiro) é bastante acessível em termos de preço e a qualidade do material é igualmente muito boa. Por enquanto, comento o volume 2 dessa coleção, que reúne os livros: A vida passada a limpo, Lição de coisas, A falta que ama, As impurezas do branco, A paixão medida e Boitempo I.

Sou bastante suspeita para falar, mas considero o Drummond um grande poeta. Ainda não sei como ou quando dizer que uma poesia é muito ruim (às vezes só não entender não basta) mas acho que consigo decodificar alguma coisa nele, não tão facilmente nos outros. É difícil falar de poesia, pois cada uma tem seu jeito de tocar o leitor. Portanto, deixo apenas uma que gostei bastante, parte dessa coleção.  Pertence ao livro Lição de coisas e chama-se Science fiction, assim:

SCIENCE FICTION

O marciano encontrou-me na rua

e teve medo de minha impossibilidade humana.

Como pode existir, pensou consigo, um ser

que no existir põe tamanha anulação de existência?

Afastou-se o marciano, e persegui-o.

Precisava dele como de um testemunho.

Mas, recusando o colóquio, desintegrou-se

no ar constelado de problemas.

E fiquei só em mim, de mim ausente.

ps: aconselho que procurem esse poema no próprio livro, pois a formatação do WordPress não ajuda muito…

Vai dizer?

Have a nice day

🙂

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3 pensamentos sobre “O Estrangeiro, Enquanto agonizo e 23 livros de poesia de Drummond

  1. Boas dicas. Pretendo escrever sobre O Estrangeiro, quando tiver tempo. O Enquanto Agonizo é excelente, tenho essa edição há tempos, mas só fui ler no ano passado enquanto fazia Literatura Americana. E o Drummond nem precisa falar…

  2. No “Cânone Ocidental”, Harold Bloom acaba traçando uma “genealogia” de personagens tipicamente niilistas que passam pelo Perdoador do Chaucer e Iago de Shakespeare para se condensar nos personagens do Dostoievski, como o Svidrigáilov. O “estrangeiro” camusiano não é tão ” negativo” quando essas figuras, mas deve a eles na tradição literária a sua criação. No mais, “L’Etranger c’est moi”, ou pelo menso eu gostaria que fosse. =D

    Não li o “Enquanto Agonizo”, apesar de sua versão de bolso me tentar há anos. Não falaste do que eu mais gosto no Faulkner, domínio completo do discurso indireto livre. Nisso ele é muito bom, e a meu ver supera todos. Já com Drummond tenho uma relação de amor e ódio.

    Eu deveria ter essa prática de escrever sobre o que eu leio, mas tenho muita preguiça. Prefiro encher o saco em post alheio.

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