O maravilhoso mundo dos romances históricos

Volto a blogar para atualizar a minha situação de leitora (não que isso seja do interesse público, mas algumas dicas sempre são válidas).

Hoje venho relatar os encantos do universo do romance histórico (ainda me pergunto se existe a possibilidade de um romance não ter NADA de histórico, mas tudo bem!) pois no mestrado temos lido ficções desse “tipo”.

Comecemos pelo clááássiquésimo de Alejo Carpentier, O reino deste mundo. Historicamente falando, a trama gira em torno do processo de independência do Haiti. Tu consegue entender direitinho a história pois não necessita da História (saca?). Carpentier dá uma lição que transcende os limites da novela, tocando em questões sobre o homem mais do que fatos datados. A personagem principal (e fictícia) é Ti Noel, um escravo que passa a vida inteira nessa condição, refletindo, já com seus 80 anos, sobre os desdobramentos do domínio de um determinado grupo de pessoas em relação a outras.

Outro romance histórico (que nem imaginei ser histórico) é O nome da rosa (Umberto Eco). Esse já foi comentado por aqui. Engraçado… depois de saber da natureza da novela de Eco, me deu vontade de reler! Narrativa instigante devido ao seu caráter detetivesco… quem não gosta de uma história sobre assassinatos misteriosos? Para quem se interessar, Umberto Eco explica o processo de produção do romance em “As apostilas sobre O nome da rosa”. Título, narrador, o pós-moderno, são alguns dos tópicos que ele debate. (Espécie de Philosophy of composition, do Poe – o qual ele cita!)

Há alguns dias, li A margem imóvel do rio (Luiz Antonio de Assis Brasil). Pretendo fazer a monografia da disciplina de Literatura e História sobre ele. O mais interessante desse livro é que ele toca justamente na questão da História! Funções, formas de buscar a “verdade”, implicações na mente do Historiador (personagem assim mesmo, em maiúsculas, sem nome específico). O mais interessante talvez seja todo um percurso do Historiador de volta ao passado, como quando refazemos nossos passos a fim de encontrar algum objeto que perdemos sem saber exatamente onde. O Historiador tem como missão voltar ao RS e encontrar um tal Francisco da Silva, o qual desejava receber um título de Barão. Remete a um período histórico (Império) sem sobrecarregar o leitor com eventos históricos (caso da Ana Miranda, saca?) e trabalha também questões universais, pois o histórico é pano de fundo (não o é sempre?)

No momento, entrei no (O) Mundo alucinante de Reinaldo Arenas. Li umas 60 e poucas páginas até agora, mas posso garantir que a coisa é punk. Um romance com três narradores diferentes (e simultâneos!) não é fácil de ler e tampouco deve ter sido fácil de escrever. Enfim, escritores e suas artimanhas para fazer um “dorgas, mano” em seus trabalhos.

Voltarei a ficar alucinada no mundo alucinante.

 

Cheers! 😀

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8 pensamentos sobre “O maravilhoso mundo dos romances históricos

  1. Tri é que tu já até chamas “O Nome da Rosa” de novela. =p

    “A margem imóvel do rio” é massa mesmo. Faz parte de uma série de romances dele chamada “Visitantes do Sul”. Outros romances que fazem parte é “O Pintor de Retratos” e “Musica Perdida” (não li ambos).

    Ainda sobre o “A margem …”, tem uma dissertação defendida na FURG sobre esse romance (que eu acho que já te disse que não gostei). Tu sacaste o lance que eu saquei e que o guri que fez a dissertação não: o personagem “Historiador”. É uma tradição no ocidente do século XX retratar historiadores fracassados. Minha hipótese não posta a prova é de que isso aí reflete o descredito da disciplina tanto pela “Alta Modernidade” quando pela “Pós-Modernidade”. No mais, historiadores são fracassados e esses romances não deixam de representar uma realidade que observei empiricamente. =D

    Sobre o livro que eu te falei que o Assis Brasil vai lançar:

    http://www.lpm-blog.com.br/?tag=figura-de-sombra

    Abraço!

    • Sim, o tri do A margem… é que ele problematiza a questão do Historiador fracassado, enquanto os outros romances (las novelas =P) se preocupam em mostrar a história ‘em off’ ou sob um outro ângulo possível mas não documentado. Vou procurar essa dissertação, eu só tinha visto aquela sobre o Cães da província e o fatídico Canibais do David “Cãimbra”! hehehe

  2. Eu não tenho uma resposta para a a tua questão “(ainda me pergunto se existe a possibilidade de um romance não ter NADA de histórico, mas tudo bem!) “, mas posso ajudar a torna-la mais confusa. =D

    Um “texto/obra” (tem aque lance de que texto é aberto e obra é fechada, enfim, não importa o conceito que tu utilizes) vai ter a marca da historicidade do tempo e espaço em que é produzida. Nisto, todo e qualquer produto das atividades humanas é “histórico” (uma ideia que pode ser classificada como um “historicismo” radical).

    Um romance “histórico” (não importa se é o “tradicional” ou o “novo”) vai trazer uma reflexão sobre o passado em relação ao presente do “texto/obra” e, para mim, uma espécie de “consciência histórica”, que se liga as “teorias da história”.

    Isso aí do “passado em relação ao presente” é meio estranho, pois dependendo do autor da pra considerar o passado próximo (que foi o que eu vi a Hutcheon fazendo) ou não (é o caso do Seymor Menton). De qualquer maneira, esse “texto/obra” vai ter relação com as indagações do seu tempo sobre o passado da sociedade da qual faz parte. Por isso o sir Walter Scott coloca uma cavaleiro de posição social média sendo o motor da sociedade (uma visão liberal/progressista do desenvolvimento das sociedades) e o Alejo Carpentier vai focar em um escravo um uma posição social baixa encontrando um destino trágico (que tem a ver com um marxismo que já pensa as questões de cultura como ponto de resistência e prática revolucionária).

    Esse lance da “consciência histórica” a professora Carmen aceita de maneira meio espiada (para ela esse não é um fator que determina um romance histórico, sendo apenas um de seus elementos), mas foi o que tu viu no “A margem…” e o que eu vejo eu tudo que é romance que se diz “histórico”.

    Pensando nisso, eu não sei o que para ela é um “romance histórico”. AUSHuashHASUHaushuAHS

    A diversão das humanidades é esse caos epistemológico onde toda definição acarreta vários problemas.

    • Concordo com tudo o que tu disseste, inclusive, enxergo em todo romance histórico uma determinada concepção da história (reafirmada ou desprezada). É que em A margem imóvel do rio, isso é o mote do romance. Nos outros, a exemplo do Reino de Carpentier, é pela conclusão da narrativa e a reflexão sobre o que se passou com Ti Noel é que conseguimos dizer: “bem, pelo visto esse cara vê a História de tal modo” (como fizemos em aula e gerou polêmica! HAUISHAI) Em A margem… conseguimos de cara ver qual é a crítica à História (eu pelo menos vejo aquilo como crítica… e o fantasma daquela mulher não é descabido. acho que é o fantasma que persegue todo o pesquisador dessa área, inclusive da nossa!) Enquanto houverem esses debates, continuaremos pagando nossas contas! É isso! 😛

    • Eu acho que te entendo… os romances históricos possuem algumas características fechadas que os impedem de inovar. Esse do Arenas é diferente, mas mesmo assim, tem todo o “peso” de ser romance histórico. Mazébaum!

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