Qual é a identidade da literatura brasileira?

Hoje, pude retomar um dos hábitos que tinha na minha infância: fui a uma banca de revistas. Minha intenção era comprar a revista CULT, mas a matéria de capa não me chamou a atenção. Passando o olho pelos diversos exemplares dispostos nas prateleiras da banca, deparei-me com a revista Metáfora, a qual aborda temas de crítica, cultura literária e também traz guias de leitura.

Uma das matérias da revista que achei interessante (até o momento, pois tem uma sobre o Proust que é preciso ter tempo e calma para apreciar) diz respeito a identidade da literatura brasileira lá fora.

O artigo em questão é do escritor, editor e tradutor Rodrigo Lacerda e chama-se “Literatura tipo exportação”. O texto aborda o interesse das editoras internacionais em comprar direitos de tradução de nossas obras, visto que o Brasil será homenageado na Feira de Frankfurt, no ano que vem. Verifica-se então que, desde muito tempo, as nossas letras não são prestigiadas lá fora, com algumas exceções como Drummond e Lispector. Da “nova literatura” pode-se citar Scliar, João Ubaldo Ribeiro e Milton Hatoum. No entanto, ainda há muita barreira para transpor.

Podemos nos perguntar: por que será que a literatura brasileira não consegue prestígio em outros países? A justificativa que consta na matéria é de desanimar. Editores brasileiros contam que o público internacional ainda busca na literatura brasileira o EXÓTICO (sim, um romance sobre uma arara, quem sabe?) com muita selva, samba e carnaval. Outro argumento para o baixo “consumo” da literatura brasileira “do lado de lá” é que os romances são muito curtos, têm menos de 300 páginas, isso indica que o escritor “não se soltou”. Segundo alguns agentes americanos, os romances brasileiros não “agarram os leitores como um tigre, rápida e impiedosamente”.

Não sei o quão espantadas as pessoas podem ficar depois de tomar conhecimento de tais dados, mas eu fico estupefata. Não sei se pela visão de colônia que ainda assumimos no cenário cultural, de que devemos “exportar” nossas “excentricidades” ou se pela babaquice na contagem de páginas para se fazer um bom romance. Tolkién e Stephen King devem basear-se nessa coisa de que é preciso escrever bastante. J.J. Benítez com seu Cavalo de Tróia então, nem se fala. Sou da filosofia de que é preciso escrever o que deve ser dito, com conteúdo e habilidade. Nada mais.

Não concordo também quando alegam não haver romances brasileiros que nos ataquem como tigres. Tente começar a ler  O alienista e dar uma pausa e continuar a ler depois. Ou então, não se sentir instigado por Cães da província, Memórias póstumas de Brás Cubas, Trapo (de Cristóvão Tezza) ou Até o dia em que o cão morreu, do escritor gaúcho Daniel Galera. É um romance de menos de 100 páginas, mas que te deixa com uma vontade imensa de saber qual será o destino daquele protagonista.

Os escritores da geração romântica tiveram uma ânsia por construir uma identidade nacional tão forte, que por muitas vezes pensei ser um exagero. No entanto, chegando nesse ponto, entendo. Precisamos de uma identidade que não esteja mais na selva nem nos sabiás. Mas que nunca se perca nossa essência, nem se esbarre em samba em futebol só para alcançar 300 inúteis páginas.

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8 pensamentos sobre “Qual é a identidade da literatura brasileira?

  1. Eu acho que o grande problema da Literatura Brasileira é a própria língua. Muitos bons romances brasileiros têm no trabalho da linguagem o seu grande trunfo (Guimarães osa e João Ubaldo Ribeiro, por exemplo) daí os caras lá acabam lendo algo “sem sentido”, já que a tradução não abarca esses aspectos.
    Essa do número de páginas acho balela, pois Metamorfose é um dos romances (ou novela, sei lá) mais cultuados e é bem curto.

    • É, pensando bem essa peculiaridade no linguajar pode trazer grandes desafios, mesmo. Mas acho que eles estão se referindo a um tipo de literatura mais contemporâneo, que acaba não fornecendo esse tipo de barreira. Essa do número de páginas me quebrou as pernas, foi a coisa mais infundada que poderiam ter dito. Até livros muito geniais, exemplo, Crime e castigo, em que se leva uma vida inteira para terminar, atingem um ponto em que se torna muito crítico e empaca a narrativa, a deixando entediante, para apenas depois retomar as rédeas. E a Metamorfose do Kafka taí para provar que tamanho não é documento at all!

    • A parte em que digo que eles querem samba, futebol e carnaval não é invenção, os editores brasileiros REALMENTE escutam isso HOJE. Por isso acredito que a língua não seja um grande problema, até porque a literatura brasileira contemporânea já não tem mais toda a carga de regionalismo de antes.

      • Eu discordo, Freak. Pode não ser regional, mas a língua é peculiar. Além disso existe a questão cultural, muitos romances fazendo sentido para nós que estamos inseridos nesse contexto brasileiro. Por exemplo, Cidade de Deus, ou mesmo Milton Hatoum falando de árabes no Amazonas, Veríssimo e seu cinismo político, etc…
        Eu sempre achei os romances brasileiros bastantes específicos e a despeito do que disse Tólstoi (teria sido ele mesmo?) nem sempre falar da tua vila te torna universal…

  2. A cultura dos outros países, então, é mais “fácil” de ser decifrada, é isso? Me parece que falta empenho por parte dos tradutores em querer saber mais da nossa cultura. E traduziram Clarice Lispector, o que não deve ser lá muito fácil. Acredito que todo o trabalho de tradução (e tu mesmo deves saber melhor do que eu) envolve toda questão sócio-histórica, cultural, ideológica de uma determinada localidade. Mas concordo com o Tolstói… diz a internet que foi ele quem disse! 😛

    • Não que seja fácil de decifrar, mas é inegável que nós, terceiromundanos :D, temos muito mais acesso à cultura européia/norte-americana do que o inverso. Aí fica um pouco mais fácil de decifrar a coisa toda. E quanto traduzir Clarice ou qualquer outra obra daqui pra lá deve ser muito difícil e se não foi bem feito, talvez aí resida a resistência à Literatura Brasileira.

      • Não desconsidero que tenhas razões nesses pontos. Concordo plenamente. O problema reside justamente em sabermos os motivos. Não é como se estivéssemos aqui levantando hipóteses. O que se ouve é que nossos romances são curtos (meaning: sem criatividade, por tabela) e que eles querem algo exótico. Isso é assumido. E isso que é desanimador. 😦

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