Um gosto de 1984

No dia do leitor, meu post foi sobre dois livros que estou lendo no momento, Quando comecei a ler 1984 não consegui mais parar e deixei O nome da rosa de lado. Terminado o romance do Orwell a única coisa que fica é confusão, vazio mesmo. Ele tem essa capacidade de traçar um futuro tão inimaginável e ao mesmo tempo tão nosso, causando esse desconforto (acredito ser essa a grande sacada da literatura – causar desconforto, desconstruir, para que possamos juntar os pedaços back again.)

Gosto de postar, vezenquando, trechos de livros, pois isso funciona para mim com relação a livros e filmes. Basta um comentário, um trecho, uma referência de amigos cinéfilos/leitores confiáveis para que o interesse surja. E é essa a minha intenção ao publicar aqui esse trecho de 1984, um dos mais impactantes, na minha visão.

“As velhas civilizações diziam basear-se no amor ou na justiça. A nossa se baseia no ódio. No nosso mundo as únicas emoções serão o medo, a ira, o triunfo e a autocomiseração. Tudo o mais será destruído – tudo. Já estamos destruindo os hábitos de pensamento que sobreviveram da época anterior à Revolução. Cortamos os vínculos entre pai e filho, entre homem e homem, e entre homem e mulher. Ninguém mais se atreve a confiar na mulher ou no filho ou no amigo. Mas no futuro já não haverá esposa ou amigos, e as crianças serão separadas das mães no momento do nascimento, assim como se tiram os ovos das galinhas. O instinto sexual será erradicado. A procriação será uma formalidade anual, como a renovação do carnê de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas já estão trabalhando nisso. A única lealdade será para com o Partido. O único amor será o amor ao Grande Irmão. O único riso será o do triunfo sobre o inimigo derrotado. Não haverá arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, já não precisaremos da ciência. Não haverá distinção entre beleza e feiura. Não haverá curiosidade, nem deleite com o processo da vida. Todos os prazeres serão eliminados. Mas sempre – não se esqueça disto, Winston -, sempre haverá a embriaguez do poder, crescendo constantemente e se tornando cada vez mais sutil. Sempre, a cada momento, haverá a excitação da vitória, a sensação de pisotear o inimigo indefeso. Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando um rosto humano – para sempre.

– 1984, George Orwell- Trecho retirado da edição da Companhia das Letras. Tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

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Um pensamento sobre “Um gosto de 1984

  1. Essa imagem da bota esmagando um rosto me impactou muito também quando li. Particularmente prefiro “A Revolução dos Bichos” por considerar a história um ataque mais direto a URSS.

    Recomendo os ensaios dele também. “Dentro da Baleia e outros ensaios”, da Cia das Letras, é uma reunião de alguns destes ensaios dele que li agora pouco. Alguns textos que compõem o livro possuem uma atualidade tremenda. Destaque para o “Dentro da Baleia”, crítica ao “Trópico de Câncer” do Henry Miller (que é outra coisa soberba) e uma verdadeira aula de história e literatura.

    Abraço!

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